A Maldição
de Obaluaiê.
Anoitecia em Laranjeiras, e logo o badalar do sino anunciaria
a hora da Ave Maria, quando então o frescor daquela tarde primaveril daria
lugar ao sereno acolhedor, um convite à oração e ao sono tranquilo, que sempre
chegava após o café com bolachas e cuscuz. Nessa terra de gente pacata ordeira
e religiosa, habituada a dormir com as galinhas e acordar com os galos, o
cheiro doce de cabaú pairava no ar impregnando como uma marca a tudo e a todos.
Aos poucos a luz natural deu lugar às trevas e redemoinhos
de ventos precederam grossos pingos d’água, todavia, surpreendentemente, o
dilúvio esperado não aconteceu. Em seu lugar, um silencio medonho e angustiante
o bastante, para levarem as beatas à matriz do Sagrado Coração de Jesus, em
busca de proteção divina.
Enquanto isso, em uma casa de pau a pique da Comandoroba, mãe Aninha, a lôxa da nação Nagô, exalava seu último suspiro de vida, e a mãe natureza, domínio absoluto dos orixás, revelava o ocorrido através dos seus incontáveis poderes.
Enquanto isso, em uma casa de pau a pique da Comandoroba, mãe Aninha, a lôxa da nação Nagô, exalava seu último suspiro de vida, e a mãe natureza, domínio absoluto dos orixás, revelava o ocorrido através dos seus incontáveis poderes.
A funesta notícia logo se espalhou por todos os
cantos, e aqueles que haviam procurado abrigo no interior da igreja, iniciaram um
sem fim de Padres-Nossos e Salve Rainhas, tendo à frente o Padre Francesco
Donatelli, pároco local, cuidadoso ao extremo com as ovelhas do seu rebanho.
Italiano de nascença, inimigo declarado do povo de
santo, Donatelli transportava uma aura de mistério em seu entorno. Homem,
extremamente culto e de padrões morais rígidos, idolatrado pela população pobre
e defenestrado pelos barões da cana de açúcar, prepotentes e pecadores
habituais. Seu perfil de líder nato, a retórica e admirável eloquência no
púlpito atraía católicos de outras paróquias, e durante os sermões, cada
ouvinte sentia-se como se fosse o alvo daquelas palavras, e o peso da mão de
Deus onipotente sobre suas cabeças tornava-se real, enquanto miravam estáticos aquele
semblante austero, imagem fiel da verdade e sabedoria.
Sendo assim, horas e horas entregues às incontáveis
ladainhas, antes de serem licenciados para voltarem às suas casas, onde
continuariam a cumprir tarefas religiosas, proibidos de saírem ás ruas até o
final do enterro da velha macumbeira, sendo o fogo do inferno o caminho sem
retorno para os desobedientes.
O funeral da mãe de santo foi algo que os moradores
daquele pedaço de mundo jamais esquecerão. À frente do cortejo, o corpo da
anciã repousava sobre um carro de bois, acompanhado por pessoas vindas de toda
a redondeza, iniciadas ou não, todas vestidas imaculadamente de branco, pés
descalços trilhando por entre as ruelas cobertas de lama, entoando cânticos em
dialetos iorubas.
Aos poucos, suas vestes eram lambuzadas pelo
pretume vindo do chão, fazendo o séquito ainda mais impressionante, deixando
emudecidos os que espreitavam por entre combrogós encortinados e orifícios de
fechaduras, que depositaram em suas memórias aquelas imagens convertidas em lendas,
que foram passadas de boca em boca durante muitos anos, nas casas de farinha,
nos canaviais e nos mercados.
Ao enterro, seguiram-se sete dias de rituais, com
os ogãs arrancando gemidos dos seus atabaques pela noite adentro, despertando a
ira dos desafetos, alimentando ódios e vinganças e deixando o reverendo insone
e transtornado, no cubículo que lhe servia de quarto.
Enfim o domingo chegou com ar de serenidade, com o
dobrar solene dos sinos intimando os cidadãos a comparecerem à missa. A fila em
frente ao confessionário prometia ser extensa, e o assunto, murmurado à meia
boca, ainda era os fatos ocorridos na fatídica semana. Logo eles saberiam que o
pesadelo não acabara.
Um grito estridente vindo da entrada lateral do oitão do santuário fez com que todos corressem naquela direção e dessem de cara com a beata Maria do Céu desfalecida frente a um ebó descomunal, composto de cabeças de bode, charutos, farofa de dendê, galinha preta e garrafas de cachaça. As faces crispadas atestavam nojo e medo, e o alarido logo trouxe à cena o padre Donatelli, que de imediato se tornou senhor da situação, dominando os aflitos com sua autoridade.
Um grito estridente vindo da entrada lateral do oitão do santuário fez com que todos corressem naquela direção e dessem de cara com a beata Maria do Céu desfalecida frente a um ebó descomunal, composto de cabeças de bode, charutos, farofa de dendê, galinha preta e garrafas de cachaça. As faces crispadas atestavam nojo e medo, e o alarido logo trouxe à cena o padre Donatelli, que de imediato se tornou senhor da situação, dominando os aflitos com sua autoridade.
Louvando
o nome de Deus que derrotava todos os seus inimigos, aspergiu água benta sobre
o feitiço, e surpreendentemente com as próprias mãos, sob o olhar aterrado de
todos, colocou tudo em um caixote que surgiu não se sabe de onde, atravessou a
praça, deixando a carga sinistra num monte de entulho que ali aguardava coleta.
De
volta ao burburinho, convocou de imediato prefeito e delegado, dos quais
solicitou que as medidas cabíveis ao caso fossem tomadas de imediato, após o
que, vociferou ordenando que todos adentrassem ao templo, onde, acalmados
ânimos, deu inicio ao culto dominical.
As
autoridades cumpriram à risca seus papéis, e mesmo com todos que se encontravam
no terreiro negando a autoria do despacho, a casa de Abuluaiê foi invadida,
seus objetos litúrgicos destruídos e ridicularizados, xanxerês queimados, iaôs surradas,
atabaques destruídos junto com coroas, aguidares, agogôs e imagens, tudo foi
deixado em pedaços.
Tonho de Omulú e seus seguidores, foram convidados a deixar a cidade apenas com as roupas do corpo e á pé, o que fizeram sem hesitar, diante de iminente risco de vida, sob o olhar vigilante de meganhas armados que os acompanharam até os limites municipais. Enquanto isso, lá na matriz, o pároco sorvia o sangue de Cristo e repartia o pão, pregando o perdão e o amor entre os homens de boa vontade. A fumaça advinda do fogaréu aceso na mata sagrada dos nagôs misturava-se com o incenso dos turíbulos e o odor de cera queimada. Os raios de sol, adentrando pelos vitrais coloridos, atravessavam a nave central do templo, dando a certeza de que Deus estava presente naquele momento.
Tonho de Omulú e seus seguidores, foram convidados a deixar a cidade apenas com as roupas do corpo e á pé, o que fizeram sem hesitar, diante de iminente risco de vida, sob o olhar vigilante de meganhas armados que os acompanharam até os limites municipais. Enquanto isso, lá na matriz, o pároco sorvia o sangue de Cristo e repartia o pão, pregando o perdão e o amor entre os homens de boa vontade. A fumaça advinda do fogaréu aceso na mata sagrada dos nagôs misturava-se com o incenso dos turíbulos e o odor de cera queimada. Os raios de sol, adentrando pelos vitrais coloridos, atravessavam a nave central do templo, dando a certeza de que Deus estava presente naquele momento.
Dessa forma os ritos africanos foram banidos de
Laranjeiras, e o Terreiro Filhos de Omulú transformou-se em mito, com seus
adeptos mudando-se para outras plagas onde resistiram culturalmente nas
periferias e guetos.
Aproximava-se
a época do olubajé, o banquete ritual oferecido a Obaluaiê, o senhor da terra,
orixá temido e misterioso em suas vestes feitas com palha da costa, que esconde
quase todo o seu corpo, soberano dos males e das curas. Pelas ruas de Aracaju
os devotos carregavam cestos repletos de pipocas, que ofereciam aos passantes
em troca de donativos que seriam usados na organização da festa.
Tonho de Omulú era um deles, com seus noventa e tantos anos, respeitado por todos da casa do Babalorixá Genaro do Porto D’Antas. Cumpria sua obrigação sentado num banquinho forrado com camurça, no pescoço um vistoso colar de fios compostos de contas pretas e brancas. Preparava-se para ir embora, quando uma voz trêmula e vacilante perguntou-lhe como chegar à Igreja São Pedro Pescador, que era ali próximo, para os lados do Bairro Industrial.
Omulú reconheceu o sotaque italiano do algoz do seu povo, mas não se alterou, e levantando a cabeça defrontou-se com uma figura esquelética e carcomida, envolta numa batina cujo capuz realçava aqueles gélidos olhos azuis, que tantos calafrios causaram aos fiéis laranjeirenses. Agora eles apenas transmitiam tristeza e uma fragilidade interior imensa, encovados no rosto excessivamente enrugado e com marcas de varíola. Apontou-lhe a direção do mosteiro e em seguida ofereceu-lhe o ultimo saco de pipoca que lhe restava. Francesco virou-lhe as costas sem nada dizer e ambos seguiram seus caminhos em direções opostas.
Laranjeiras, apesar de possuir um invejável patrimônio arquitetônico barroco e belezas naturais, não atrai turistas, sendo considerada uma cidade em decadência, e o seu solo depauperado por centenas de anos de monocultura intensa, continua a sugar o suor dos pobres e a encher os bolsos dos ricos. Décadas atrás, surtos de cólera ceifaram centenas de vidas sem distinção de classe social.
Sua população é majoritariamente afrodescendente e o culto aos orixás é amplamente aceito.
Tonho de Omulú era um deles, com seus noventa e tantos anos, respeitado por todos da casa do Babalorixá Genaro do Porto D’Antas. Cumpria sua obrigação sentado num banquinho forrado com camurça, no pescoço um vistoso colar de fios compostos de contas pretas e brancas. Preparava-se para ir embora, quando uma voz trêmula e vacilante perguntou-lhe como chegar à Igreja São Pedro Pescador, que era ali próximo, para os lados do Bairro Industrial.
Omulú reconheceu o sotaque italiano do algoz do seu povo, mas não se alterou, e levantando a cabeça defrontou-se com uma figura esquelética e carcomida, envolta numa batina cujo capuz realçava aqueles gélidos olhos azuis, que tantos calafrios causaram aos fiéis laranjeirenses. Agora eles apenas transmitiam tristeza e uma fragilidade interior imensa, encovados no rosto excessivamente enrugado e com marcas de varíola. Apontou-lhe a direção do mosteiro e em seguida ofereceu-lhe o ultimo saco de pipoca que lhe restava. Francesco virou-lhe as costas sem nada dizer e ambos seguiram seus caminhos em direções opostas.
Laranjeiras, apesar de possuir um invejável patrimônio arquitetônico barroco e belezas naturais, não atrai turistas, sendo considerada uma cidade em decadência, e o seu solo depauperado por centenas de anos de monocultura intensa, continua a sugar o suor dos pobres e a encher os bolsos dos ricos. Décadas atrás, surtos de cólera ceifaram centenas de vidas sem distinção de classe social.
Sua população é majoritariamente afrodescendente e o culto aos orixás é amplamente aceito.
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