terça-feira, 15 de maio de 2012

SERGIPE NÃO É O QUINTAL DA BAHIA


Sergipe não foi, não é, e certamente jamais será o quintal da Bahia, como afirmou o fanfarrão conhecido no mundo musical como compadre Washington, em entrevista concedida a uma emissora de TV durante a maior prévia carnavalesca do Brasil, o pré-caju. Com tal declaração, o dito cujo comete ato indigno, grosseiro e injustificado.
Destrata os conterrâneos daquele que generosamente o contratou, e, portanto, seu patrão, quando na verdade deveria agradecer-lhe , por dar-lhe a oportunidade de aparecer na mídia nacional em um evento de primeira grandeza. Em Salvador, ao compadre e outros que a muito deixaram de ser estrelas de primeira grandeza, estão reservados os blocos da terceira divisão e circuitos alternativos da fuzarca soteropolitana. Hoje a constelação-axé-pop é formada por Ivete, Daniela, Claudinha, Chiclete e Asa.
Também demonstra desconhecer os caminhos e veredas históricas que permeiam os dois estados através dos tempos. Certamente não frequentou assiduamente a escola, ou, quem sabe, seu intelecto não permitiu assimilar o que lhe foi ministrado. Portanto, vamos à historia, com o intuito de iluminar o cérebro do famoso artista e assim transmitir-lhe conhecimento.
 Nosso território foi conquistado em 1590 após a derrota dos nativos, ferozes tupinambás que aqui habitavam, sendo então fundada a cidade de São Cristovão, quarta mais antiga do Brasil. As terras foram então divididas entre os vitoriosos combatentes, que receberam imensas áreas adequadas para agricultura e pecuária. Naturalmente, os primeiros brancos que aqui se estabeleceram foram baianos e pessoas oriundas de outras regiões. A partir daí, Sergipe liberta-se do jugo baiano em quatro oportunidades perfeitamente reconhecidas.
Ao final do século XVII, mais exatamente em 1695, a Capitania de Sergipe d‘el Rey obtém sua liberdade jurídica, ou seja, passa a ter sua própria Comarca, podendo dessa forma julgar os que por aqui cometiam ilícitos penais.
Já em 1822 consegue autonomia política, separando-se definitivamente da Bahia, sob ordem do Imperador D. Pedro I, gerando revolta nas autoridades baianas, que pegaram em armas, depondo o presidente da nascente província sergipana, Dr. Carlos Burlamaque, e reassumindo o poder.
Caro Washington, você sabe por que o governo baiano tomou essa atitude, contrariando ordens imperiais, arriscando-se a serem declarados traidores?
            Sergipe era então o celeiro da Bahia, abastecendo-a permanentemente durante décadas de carne, aves e produtos agrícolas, bem como pagando impostos extorsivos, que alimentavam uma elite permissiva e corrupta. Aqui o progresso econômico foi conquistado através dos tempos com trabalho duro e muito suor, tanto nos imensos currais, quanto nos canaviais adubados com sangue africano.
            Com a confirmação da nossa alforria São Cristovão é reafirmada capital da Província de Sergipe, assim permanecendo até 17 de Março de 1855, quando ocorre a mudança para Aracaju, que propiciou um vertiginoso crescimento socioeconômico, livres de tarifas alfandegárias que nos foram impostas. Sendo assim, o governo baiano perdia em definitivo sua galinha dos ovos de ouro.
            A última das conquistas é nossa independência cultural.  O contexto histórico e a proximidade dos dois territórios, com a ascendência politica e populacional da boa terra, em muito dificultou a formação de nossa identidade, deixando adormecida a tão decantada sergipanidade. Todavia, persistimos e mais uma vez conseguimos. Temos nossos próprios valores e costumes, e o orgulho que nos permite bater no peito e gritar: minha é terra é Sergipe. Essa é uma realidade que pode ser atestada em qualquer lugar do nosso pequeno torrão.
            Recentemente realizou-se, paralelamente ao pré-caju, a Feira de Sergipe, mega evento organizado pelo SEBRAE, sucesso de público e crítica há vários anos. Ali mostrou-se aos turistas de toda parte do Brasil, nossas manifestações folclóricas, o artesanato, a culinária, as famosas quadrilhas juninas, enfim, um mosaico cultural rico e diversificado.
            Durante os 13 dias apresentaram-se no palco apenas músicos sergipanos, o que agradou a todos, diria até que unanimemente, o que sugere a existência de luz no fim do túnel, ocupado pela sub-música baiana, pornográfica e banal, que emporcalha os bons ouvidos através das nossas rádios, movidas a acarajé, e dos potentes “som de mala” de nossa juventude alienada, que graças a Deus ali não encontrou guarida. “Sergipe é o país do forró”, e o reinado foi do puro pé de serra, o que permitiu um gostoso rala coxa nas noites serenas da Atalaia. Pense numa coisa boa!   
            Pois é caro compadre, agora você sabe que Sergipe sempre procurou andar com as próprias pernas e se porventura tiveres ânimo para procurar verdades, vai perceber que o quintal da Bahia está na própria Bahia, e não na casa alheia.

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