Sergipe
não foi, não é, e certamente jamais será o quintal da Bahia, como afirmou o
fanfarrão conhecido no mundo musical como compadre Washington, em entrevista
concedida a uma emissora de TV durante a maior prévia carnavalesca do Brasil, o
pré-caju. Com tal declaração, o dito cujo comete ato indigno, grosseiro e
injustificado.
Destrata
os conterrâneos daquele que generosamente o contratou, e, portanto, seu patrão,
quando na verdade deveria agradecer-lhe , por dar-lhe a oportunidade de
aparecer na mídia nacional em um evento de primeira grandeza. Em Salvador, ao
compadre e outros que a muito deixaram de ser estrelas de primeira grandeza,
estão reservados os blocos da terceira divisão e circuitos alternativos da
fuzarca soteropolitana. Hoje a constelação-axé-pop é formada por Ivete, Daniela,
Claudinha, Chiclete e Asa.
Também
demonstra desconhecer os caminhos e veredas históricas que permeiam os dois
estados através dos tempos. Certamente não frequentou assiduamente a escola, ou,
quem sabe, seu intelecto não permitiu assimilar o que lhe foi ministrado. Portanto,
vamos à historia, com o intuito de iluminar o cérebro do famoso artista e assim
transmitir-lhe conhecimento.
Nosso território foi conquistado em 1590 após
a derrota dos nativos, ferozes tupinambás que aqui habitavam, sendo então
fundada a cidade de São Cristovão, quarta mais antiga do Brasil. As terras
foram então divididas entre os vitoriosos combatentes, que receberam imensas áreas
adequadas para agricultura e pecuária. Naturalmente, os primeiros brancos que
aqui se estabeleceram foram baianos e pessoas oriundas de outras regiões. A
partir daí, Sergipe liberta-se do jugo baiano em quatro oportunidades
perfeitamente reconhecidas.
Ao
final do século XVII, mais exatamente em 1695, a Capitania de Sergipe d‘el Rey obtém
sua liberdade jurídica, ou seja, passa a ter sua própria Comarca, podendo dessa
forma julgar os que por aqui cometiam ilícitos penais.
Já
em 1822 consegue autonomia política, separando-se definitivamente da Bahia, sob
ordem do Imperador D. Pedro I, gerando revolta nas autoridades baianas, que
pegaram em armas, depondo o presidente da nascente província sergipana, Dr. Carlos
Burlamaque, e reassumindo o poder.
Caro
Washington, você sabe por que o governo baiano tomou essa atitude, contrariando
ordens imperiais, arriscando-se a serem declarados traidores?
Sergipe era então o celeiro
da Bahia, abastecendo-a permanentemente durante décadas de carne, aves e produtos
agrícolas, bem como pagando impostos extorsivos, que alimentavam uma elite
permissiva e corrupta. Aqui o progresso econômico foi conquistado através dos
tempos com trabalho duro e muito suor, tanto nos imensos currais, quanto nos
canaviais adubados com sangue africano.
Com a confirmação da nossa alforria São Cristovão é
reafirmada capital da Província de Sergipe, assim permanecendo até 17 de Março
de 1855, quando ocorre a mudança para Aracaju, que propiciou um vertiginoso
crescimento socioeconômico, livres de tarifas alfandegárias que nos foram
impostas. Sendo assim, o governo baiano perdia em definitivo sua galinha dos
ovos de ouro.
A última das conquistas é nossa independência cultural. O contexto histórico e a proximidade dos dois
territórios, com a ascendência politica e populacional da boa terra, em muito
dificultou a formação de nossa identidade, deixando adormecida a tão decantada
sergipanidade. Todavia, persistimos e mais uma vez conseguimos. Temos nossos próprios
valores e costumes, e o orgulho que nos permite bater no peito e gritar: minha
é terra é Sergipe. Essa é uma realidade que pode ser atestada em qualquer lugar
do nosso pequeno torrão.
Recentemente realizou-se, paralelamente ao pré-caju, a
Feira de Sergipe, mega evento organizado pelo SEBRAE, sucesso de público e
crítica há vários anos. Ali mostrou-se aos turistas de toda parte do Brasil,
nossas manifestações folclóricas, o artesanato, a culinária, as famosas
quadrilhas juninas, enfim, um mosaico cultural rico e diversificado.
Durante os 13 dias apresentaram-se no palco apenas músicos
sergipanos, o que agradou a todos, diria até que unanimemente, o que sugere a
existência de luz no fim do túnel, ocupado pela sub-música baiana, pornográfica
e banal, que emporcalha os bons ouvidos através das nossas rádios, movidas a acarajé,
e dos potentes “som de mala” de nossa juventude alienada, que graças a Deus ali
não encontrou guarida. “Sergipe é o país do forró”, e o reinado foi do puro pé
de serra, o que permitiu um gostoso rala coxa nas noites serenas da Atalaia.
Pense numa coisa boa!
Pois é caro compadre, agora você sabe que Sergipe sempre
procurou andar com as próprias pernas e se porventura tiveres ânimo para
procurar verdades, vai perceber que o quintal da Bahia está na própria Bahia, e
não na casa alheia.
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