domingo, 20 de maio de 2012
CARLOS NOBRE, UM SERGIPANO NO RIO DE JANEIRO
Texto de autoria do jornalista sergipano Carlos Nobre radicado no Rio de Janeiro, Carlos Nobre Cruz
Em geral, pensamos assim: tudo que vier do negro é bom e tudo que vier do branco é ruim. Trata-se de pensamento primário, redundante, incapaz.
Na verdade, não é bem assim.
Vejamos, neste sentido, a bibliografia sobre Zumbi.
Por exemplo, o livro “Zumbi”, de Joel Rufino dos Santos, não é bom, não tem nada de novo em relação a este grande personagem do período colonial brasileiro.
Porque não tem?
O autor – que é historiador negro - não fez novas pesquisas, apenas fez releituras de livros anteriormente publicados.
Em outro sentido: não aprofundou o pensamento sobre escravismo colonial como outros autores fizeram tendo Zumbi/Palmares como foco central.
Rufino, por conseguinte, é um melhores autores negros, mas naufragou com clareza em “Zumbi”. Na verdade, houve uma avaliação errada de Rufino: não se entra na história de Zumbi para escrever com parcimônia ou melindre.
Neste sentido, Zumbi exige entrega total, afirmação, busca, resultados, novas linhas. E este livro – 76 páginas- não tem condições de executar esta tarefa política de grande envergadura.
Mas Rufino faz uma releitura de Zumbi que contraria até os movimentos negros e isso é importante. Diz que Zumbi foi um ditador quando assumiu o poder em lugar de Ganga –Zumba, pois, suas medidas políticas, demonstraram que só ele poderia decidir no quilombo, em 1678.
Como os militantes afro podem entender isso ? Zumbi ditador na perspectiva de Rufino?
Sim, pois, foi isso mesmo que aconteceu. Se não fosse isso, Zumbi não teria sido o que foi, isto é, herói contra os colonialistas.
Vejamos o que Rufino escreve:
“ A sociedade colonial escravista era, por definição, uma sociedade racista. É ingenuidade supor que os colonizadores portugueses procederam, nesse ponto, diferente dos ingleses, franceses e holandeses.”
“ Milhares de documentos amarelos, difíceis de ler, guardam a história do preto pequeno e magro que venceu mais batalhas do que todos os generais juntos da história brasileira. Esses papéis estão arquivados em Sevilha (Espanha), em Evora (Portugal), na Torre do Tombo (Lisboa), Recife e Maceió, aguardando estudos pacientes”.
Indagamos daqui: porque como historiador negro não se atreveu a encarar estes documentos já que sabia onde estavam localizados ?
Vejamos o que ele fala contextualmente sobre Zumbi:
“ Num ponto, ao menos, o velho Ganga estava certo: o antigo coroinha ( Zumbi) instalou a mais implacável ditadura militar. Ocupou militarmente a Cerca Real de Macaco, arrogou-se o poder de tudo decidir sozinho, na paz e na guerra, e executou os partidários do chefe fujão ( Ganga-Zumba).
“ Zumbi ordenou degolar quem tentasse se mudar para Cucaú. Aumentou o exército, incluindo nele, por bem ou por mal, todos os homens adultos de Palmares. Transferiu mocambos, desativou alguns e redistribuiu parte da população segundo critérios militares. Organizou um sistema de espionagem e apoio no mundo do açúcar. Transformou Macaco numa gigantesca fortaleza. A ditadura militar vestia Palmares para a guerra final”.
Eis, aqui, duas afirmações, errôneas, na medida, em que, o historiador negro usa conceitos atuais para entender o processo colonialista, que tem outros valores. Zumbi não foi ditador coisa nenhuma. Ele apenas percebera que se mantivesse a disciplina e o controle no quilombo de Palmares jamais poderia enfrentar as diversas expedições punitivas portuguesas que foram derrotadas por ele durante 17 anos..
Além disso, ele, Zumbi, enfrentava um leva de homens negros dedos-duros e combatentes, formando exércitos paralelos, que tentavam destruir Palmares e conseguir benefícios do governo português como alforrias e terras para cultivar.
Nesse sentido, o livrinho de Rufino precisa se tornar um livrão. Isto é, como o próprio sabe onde estão as fontes sobre Palmares, seria ideal que fizesse uma segunda edição citando e analisando estas fontes, e não se ancorando nos estudos clássicos já publicados.
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