domingo, 10 de junho de 2012

TOBIAS BARRETO, UM CONDOEIRO.

autor: Poeta Jorge Henrique-Nossa Senhora da Glória, SE No pó que habito não terei as rosas, As doces preces que os felizes têm; Pobres ervinhas brotarão viçosas, E o esquecimento brotará também". (Pressentimento, Tobias Barreto, 1868.) Tobias Barreto foi um poeta que não recebeu, necessariamente, o reconhecimento que merecia. Menosprezada pela crítica, sua obra poética não foi explorada o bastante, tampouco evidenciou-se sua qualidade estética. É necessário que se revele ao público esta boa produção, que se revejam posições críticas a seu respeito e que se faça justiça. Tobias Barreto de Menezes (07-06-1839/26-06-1889), mestiço, pobre, nasceu na vila de Campos, província de Sergipe, e faleceu em Recife, Pernambuco. Bacharel em direito pela Faculdade do Recife, foi jornalista, advogado e deputado provincial. Destacou-se no campo da filosofia por sua atuação polêmica contra o conformismo retórico. Questionou a concepção de física social do positivismo, relacionou o conceito de cultura à constituição de normas para a compreensão do social e do humano. Entendia a metafísica como teoria do conhecimento divergindo profundamente do positivismo. Admitia a liberdade humana como realidade não empírica. Defendeu o liberalismo na política, a emancipação feminina e a libertação dos escravos. Foi uma figura central na Escola do Recife, disseminando o pensamento filosófico alemão no Brasil que, naquela época, sofria forte influência da cultura francesa. Certamente, foi um importante pensador brasileiro no século XIX. Publicou Ensaios e estudos de filosofia e crítica (1875), Dias e Noites (1881), Estudos alemães (1883), Menores e Loucos (1884), Discursos (1887) e Questões vigentes de filosofia e direito (1888). O restante de sua obra, dispersa em jornais, foi reunida em três edições de Obras completas, em 1925, 1963 e 1989. Dias e Noites foi seu único livro de poesias e, pelo que sei, teve sete edições. O que observo nos estudos que se fizeram até o momento sobre sua obra é que boa parte dos críticos classificam-no como um grande pensador, filósofo e revolucionário das idéias, não como poeta. Realmente o foi, leve-se em conta que a maior parte de sua produção tenha tido cunho filosófico, conta-se apenas um único livro de poesias. Entretanto, ao contrário de outros autores de “livro único”, como o paraibano Augusto dos Anjos, que tiveram seu nome registrado na história literária brasileira, Tobias Barreto é sempre colocado num segundo plano. Sua obra, quando mencionada por alguns críticos ilustres, ocupa pouquíssimas linhas em que se delineiam comentários não muito amistosos. José Veríssimo (1) chega mesmo a afirmar que sua educação roceira e rudimentar fazia sobressair-lhe nos textos mais o aspecto rústico do que o letrado de sua personalidade, o que justificaria sua predileção pela vulgaridade, que não raro chegava ao chulismo da expressão. Afrânio Coutinho(2) afirma que sua produção lírica descai para o mau gosto e para a banalidade, que Dias e Noites (1881) nada vale e ninguém se lembraria de Tobias Barreto, não fossem as apologias de seu amigo Sílvio Romero. Sugerindo ainda que alguns de seus textos nada mais eram que plágio de poesias de Casimiro de Abreu. E ainda, além disso, quase sempre a crítica coteja sua produção com a do poeta baiano Castro Alves colocando-se em evidência esta em detrimento daquela. Não pretendo aqui, por puro bairrismo, supervalorizar a obra do sergipano encontrando-lhe forçosamente traços de genialidade turvados pelo visível preconceito a ele dirigido pela crítica. Tampouco colocá-lo nos píncaros da glória como fazem, o mais das vezes, com o seu contemporâneo baiano. Busco, sobretudo, uma reflexão equilibrada sobre o real valor literário que pode ser atribuído a vários poemas seus e, de certa forma, pretendo, mesmo que de maneira incipiente, dissipar a densa nuvem de segregação que se instaurou sobre sua obra poética, obscurecendo-lhe a importância no cenário literário brasileiro. Talvez o primeiro contato com a poética tobiática não pareça despertar no leitor a sensação de grandiosidade e altivez que se nota em alguns poemas de Castro Alves ou de Gonçalves Dias. Entretanto, “genialidade” não é algo que se possa requerer de nenhum artista, tampouco constância. Os grandes nomes de nossa Literatura não produziram somente obras-primas. Uma análise criteriosa (talvez tendenciosa) de qualquer grande obra quase sempre termina por encontrar-lhe o que se poderia chamar, levianamente, de falhas. Houve os que, pretensiosamente, encontraram-nas em Os Lusíadas! É mister, portanto, concordar-se que há nelas textos a que se possa atribuir valor literário e outros desprovidos deste. O que se percebe nitidamente em determinados críticos é uma predisposição gratuita a depreciar os poemas de Tobias Barreto e uma mesma predisposição a supervalorizar poemas outros de outros autores. O poema Ano Bom (3), por exemplo, é uma amostra de pobreza poética, ausência de lirismo e, talvez, chulismo de expressão. Parece não ter havido nenhuma outra preocupação formal, tão somente a de rimar o final dos versos. O poema está distribuído em doze estrofes de quatro versos à maneira das quadras populares, com rimas somente no 2º e 4º versos de cada estrofe, mantendo-se o 1º e 3º versos ímpares. Estranhamente ao que estava em voga na época (a preferência por versos livres e brancos), o texto é decassílabo. Em seus versos, repletos de um prosaísmo extremo, há quase ausência de conotação: Chega a viola, o único pecúlio De um dos muitos escravos da fazenda: Mas falta arame; manda-se um moleque Buscar depressa um carretel na venda. Volta o emissário; a coisa está completa; E o sertanejo afina o instrumento. (...) Além de sua linguagem, em alguns momento, beirar o mal-gosto: Nem sequer sabe dar uma embigada!... Salva-se no texto a temática que, segundo o título e a data de sua criação, sugere uma festa de Reveillon aristocrática (que pode ser percebida pela presença do piano – instrumento incomum nas camadas sociais mais modestas) cuja harmonia é interrompida pela presença inusitada de um sertanejo rudemente caracterizado que pede uma viola – instrumento representativo da camada popular – para demonstrar sua cultura. A oposição entre o aristocrático e o popular, que deixa transparecer o preconceito e a discriminação entre os dois extremos da sociedade, consiste numa abordagem mais equilibrada e reflexiva das questões sociais, sem apelos a idealizações, característica notória de uma poesia mais madura da fase condoreira do nosso Romantismo. O que não se pode, entretanto, é afirmar que as poesias de Tobias Barreto são chulas ou grosseiras tomando-se por parâmetro um único poema, ou alguns menos burilados. Castro Alves produziu também, se não grosserias, ao menos poesias sem poeticidade, prosaicas ou simplesmente descritivas e nem por isso rotulam-no de poeta medíocre. Tobias Barreto, a exemplo de qualquer outro poeta, produziu também seus textos medíocres, contudo, em sua antologia podemos destacar composições dignas de figurar em qualquer compêndio de Literatura Brasileira ao lado de outros grandes nomes. Veja-se, por exemplo, Eu Amo o Gênio (4). Um lirismo ímpar e envolvente é trabalhado em cinco quartetos decassílabos, também à maneira de quadras populares, com rimas apenas no 2º e 4º versos de cada estrofe, trazendo o 1º e 3º versos ímpares, traço marcante na produção do vate sergipano. A musicalidade presente no texto, que justifica o subtítulo Modinha deixa evidente não somente seu estro lírico, como também sua profunda habilidade em adequar os aspectos formais aos aspectos temáticos, utilizando estruturas funcionais, o que comprova seu domínio sobre as técnicas de produção do artefato poético. Não parece haver chulismo de expressão, tampouco mau gosto ou banalidade nos fragmentos que se seguem: (...) Há sempre um gozo no correr das lágrimas, Há sempre um riso no murchar da flor... Quando sublime de sofrer, um ‘alma Rompe dos prantos o sombrio véu. São glórias tuas, virginais desmaios, Quedas de rosas nos jardins do céu. Percebe-se, na elaboração do poema, a maestria com que trabalha as oposições luz/trevas, Deus/sofrimento. Refletindo sobre o efeito catártico deste, sobre o júbilo divino pela redenção das almas. Aqui ainda temos um Tobias menos céptico, menos contestador, contava apenas vinte anos. Mesmo assim, é notória sua habilidade e sua erudição. Procedimento reflexivo ausente, por exemplo, na produção do poeta Casimiro de Abreu quando aborda temas semelhantes, repleta de superficialismos, clichês e apelos sentimentais lúdicos desprovidos de uma abordagem mais profunda: Que pode haver maior do que o oceano, Ou que seja mais forte do que o vento?! – Minha mãe a sorrir olhou pr’os céus E respondeu: - “Um ser que nós não vemos “É maior do que o mar que nós tememos, “mais forte que o tufão! Meu filho, é – Deus!(5) Isto parece contrariar a sugestão de plágio, haja vista a erudição, a superioridade formal, o tom grandiloqüente e inquiridor e a lucidez do sergipano. Há em Tobias Barreto uma sensibilidade poética capaz de construções líricas que conseguem renovar a sensação do inusitado já adormecida em metáforas e temas gastos como é o caso de O Beija-flor (6), veja-se: E a fresca rosa orvalhada, que contrasta descorada do seu rosto a nívea tez, beijando as mãozinhas suas, parece que diz: nós duas!... e a brisa emenda: nós três!... Entretanto, talvez sua maior força resida em sua veia filosófica. Sua grande erudição permite-lhe abordar de forma estética notável temas viscerais da condição humana, a exemplo de Escravidão (7). O texto é composto de duas oitavas com esquema rímico fixo (ABBCDEEC) em redondilha maior, ou seja, há um retorno à estrutura medieval, característico do estilo Romântico. Sua temática, contudo, além de questionar a estrutura escravista do regime monárquico em vigência, opondo-lhe a República e a Abolição, procede a uma reflexão filosófica profunda acerca da Divindade dogmática como instituição mantenedora das desigualdades sociais, e conivente com a exploração do homem pelo homem: Se é Deus quem deixa o mundo Sob o peso que o oprime, Se ele consente esse crime, Que se chama escravidão, Para fazer homens livres, Para arrancá-los do abismo, Existe um patriotismo Maior que a religião. Encontramos um eu-lírico céptico e questionador de todos os dogmas religiosos que não se furta a apontar as falhas Divinas: (...) Nesta hora a mocidade Corrige o erro de Deus. Postura que se mostra muito mais eloqüente e incisiva em Ignorabimus (8) (convém transcrever o soneto completo): Quanta ilusão!... O céu mostra-se esquivo E surdo ao brado do universo inteiro... De dúvidas cruéis prisioneiro, Tomba por terra o pensamento altivo. Dizem que o Cristo, o filho do Deus vivo, A quem chamam também Deus verdadeiro, Veio o mundo remir do cativeiro, E eu vejo o mundo ainda tão cativo! Se os reis são sempre os reis, se o povo ignavo Não deixou de provar o duro freio Da tirania, e da miséria o travo, Se é sempre o mesmo engodo e falso enleio, Se o homem chora e continua escravo, De que foi que Jesus salvar-nos veio?... Encontramos sua forma mais sublime em O Gênio da Humanidade (9). Composição distribuída em sete estrofes de dez versos, com esquema rímico (ABABCCDEED), em redondilha maior. Mais uma vez consegue harmonizar os aspectos formais aos temáticos numa composição de grande densidade poética. Sua musicalidade acentuada se distribui num ritmo que, ao longo do poema, parece que se vai tornando mais intenso, assumindo na segunda metade uma conotação quase dramática que produz no leitor uma espécie de efeito catártico. O sergipano mergulha profundamente em movimentos reflexivos que demonstram sua erudição filtrada, é claro, por sua sensibilidade e sua habilidade artística que lhe permitem aproximar questões fundamentais para a humanidade à plasticidade estética da poesia: Sou eu quem assiste as lutas Que dentro d’alma se dão, Quem sonda todas as grutas Profundas do coração: Quis ver dos céus o segredo; Rebelde, sobre um rochedo Cravado, fui Prometeu; Tive sede do infinito, Gênio, feliz ou maldito, A humanidade sou eu. Não há, no entanto, uma unicidade de pensamento poético ao longo da obra, o que denota que não houve uma pretensão de fazer uma proposta poética definida. Daí encontrarmos posturas contraditórias em relação a determinados temas. Contudo, isso não lhe diminui o valor, apenas mostra que suas poesias foram compostas isoladamente e só depois coligidas para a publicação. No poema Pressentimento (10), por exemplo, não mais encontramos um sujeito lírico céptico, que afronta a Divindade exigindo-lhe, ao menos, resignação (11), mas alguém cansado, de quem a fé vai-se desvanecendo no decurso da jornada: Sofrendo, aos poucos minha fé se apaga Ao longo de quatro estrofes de oito versos, o sujeito lírico se deixa esvair em notas de pessimismo e lamentações, bem à moda dos poetas da segunda geração, na tentativa de evadir-se para a morte. Caracteriza sua existência como um martírio que o oprime e que se lhe opõe aos ideais: Meu Deus!... não mais este laurel de espinho, Não mais a dor, que o coração devasta; Minha alma é farta de martírios... basta! Tudo conspira para o meu tormento; Estranha nuvem denegriu-me a sorte, A exemplo do que diz Vicente de Carvalho: (A felicidade) Existe, sim: mas nós não a alcançamos/Porque está sempre apenas onde a pomos/ E nunca a pomos onde nós estamos.(12), o “eu”, atormentado pelas limitações que lhe são impostas pela existência, localiza sua realização num outro plano, que não seja a realidade que se lhe apresenta, e suplica a Deus que o deixe partir: Deixai esta ave procurar seu ninho. Entretanto, fica explícito no poema o sentimento da injustiça sofrida pelo “eu”. Ser de quem a vida privou da sorte, de quem foram usurpadas oportunidades ou possibilidades de realização. Note-se a oposição que é feita no 5º e 6º versos da primeira e da quarta estrofes: No meu sepulcro não terei as rosas, As doces preces que os felizes têm; No pó que habito não terei as rosas, As doces preces que os felizes têm; E numa espécie de refrão de vaticínio que é repetido ao final de cada estrofe: Pobres ervinhas brotarão viçosas, E o esquecimento brotará também. É como se o “eu” já vivesse esquecido em vida e o pressentisse em morte. É como se sempre fosse colocado em segundo plano, sempre preterido em detrimento de outrem. Contudo, vaticina: Pobres ervinhas brotarão viçosas, como quem diz: Minha semente foi lançada e, embora timidamente, germinará! Curva-se, contudo, diante de algo mais contundente: ...o esquecimento brotará também. Algo que, possivelmente, sufocará suas ervinhas. É, no mínimo, estranho que tais procedimentos poéticos tenham passado despercebidos aos olhos da crítica. Se sua popularidade não alcançou o nível nacional como a de seu contemporâneo baiano, talvez seja pelo fato de Castro Alves ter partido do Recife para o eixo Rio-São Paulo aos vinte e um anos de idade (em pleno auge de sua produção) com recomendações do ilustre José de Alencar. Enquanto Tobias Barreto permaneceu restrito ao cenário pernambucano. Se não se pode encontrar na obra poética do sergipano – como já foi dito – traços de genialidade, ao menos se deve reconhecer que seu estro poético não está aquém do dos poetas de sua época. Repito: genialidade não é algo que se possa exigir de artista algum. Se seu nome não é divulgado ou reconhecido como deveria e merecia, talvez pela hegemonia imposta por parâmetros sulistas em relação à produção cultural nacional e pela tendência, não sem pretensões, de se lhe depreciar a obra em favor das obras de autores outros. Urge, ao menos, que se reconheça sua importância no cenário literário nacional, se não como gênio, ao menos como o precursor do condoreirismo que fez de Castro o reconhecido gênio; como precursor de novas idéias mais realistas. Busque-se mostrar sua boa produção. Que seja apresentada ao público de nossos dias e que o veredicto popular se faça valer. Que se revejam posições críticas. Que se debrucem sobre seus textos novos críticos. Que se lhe faça justiça.

BACAMARTEIROS DE CARMÓPOLIS

Grupo folclórico a tradicional do município de Carmópolis, mais precisamente do povoado Rancho, que mais tarde deu origem ao município. O grupo chamado Batalhão de Bacamarteiros era composto por trabalhadores de canaviais que não tinham condições financeiras de comprar fogos de artifício. Além dos tiros, que chamam muita atenção durante todo o cortejo, também fez parte do ritual um repertório baseado no cancioneiro popular. O grupo dispara os tiros de bacarmartes ao som das rimas: “quero ver carvão queimar”, e “menina bonita, faceira, dengosa, quer ir mais eu ‘vamo’, quer ir mais eu ‘vamo’ embora”. A cantoria é acompanhada por instrumentos como o ganzá, pífano, cuíca, pandeiro e reco-reco. Os bacamarteitos têm como padroeiros do grupo São João e São Pedro. Participam da festa homens, mulheres e até crianças. Reforçando assim a tradição passada de pai para filho. A maior parte dos componentes é composta por moradores do povoado Aguada. A manutenção desta tradição é fundamental para a cultura de um povo, que precisa e deve valorizar as coisas da sua terra. Fonte: Cinform

CARNAVAL DO CARRO QUEBRADO

Corria o ano de 2005, quando cinco amigos – Emmanuel Dantas, Hugo Martins, José Marins Filho, Sérgio Pereira e Jackson Silva –, acostuma-dos a se reunir no Bar da Macaxeira, decidiram fundar a Confraria do Carro Quebrado. Para quem desconhece, Carro Quebrado é o antigo nome do bairro São José e na tentativa de promover ações culturais e sociais na comunidade, foi que o quinteto resolveu resgatar o Carnaval de Rua, embalado pelas marchinhas e muito frevo, que tanto alegrou as famílias da capital sergipana no passado. Mesmo sem muitos recursos, mas contando com o apoio da comunidade, a Confraria conseguiu realizar a primeira edição do Carnaval do Carro Quebrado em 2006. O radialista Emmanuel Dantas lembra que o orçamento da primeira festa foi pífio – cerca de R$ 6 mil – porém o suficiente para animar os foliões e conquistar a adesão de empresários e do poder público, que dois anos depois, já estavam apoiando a festa. A 7ª edição do Carnaval do Carro Quebrado, prévia da festa momesca na capital sergipana, aconteceu este ano, no mesmo local já denominado Largo do Carro Quebrado, prestigiando bandas sergipanas, que tocam somente frevo e marchinhas. Com o tema permanente “Carnaval Cultural do Carro Quebrado- Quem Conhece, Jamais Esquece!”, a sétima edição homenageou à única mulher que transitava livremente pela Confraria, a senhora Terezinha dos Anjos, mais conhecida como “Têca”, que foi alçada a Rainha do Carnaval do Carro Quebrado, ainda em vida. Após dois anos de sua morte, sua figura é lembrada através da boneca gigante “Têca”, confeccionada pelo artista plástico Belém. “A Têca era a pessoa que fazia o elo da comunidade com a Confraria. Ela eraresponsável pela arrecadação das doações da população interessada em fomentar o Carnaval do Carro Quebrado e sensibilizou os moradores a contribuir com a festa, principalmente, nas primeiras edições, quando não contávamos com tantos patrocinadores”, explica Érico Melo, atual presidente. Segundo o pernambucano José Marins Filho, presidente da Confraria do Carro Quebrado em 2006 e uma das testemunhas do nascimento do Galo da Madrugada, acredita que no futuro, o Carnaval do Carro Quebrado ganhe uma dimensão inimaginável. “Estamos trabalhando para isso, para que a nova geração abrace a causa e consiga, quando não estivermos mais à frente da Confraria, levar adiante esse sonho de resgate de uma tradição”.
Caboclinhos e Lambe-sujos: tradição laranjeirense. A cidade de Laranjeiras é palco de uma das mais genuinas e originais manifestação cultural,legitimada e produzida pelo povo. Caboclinhos e Lambe-sujos revivem de forma espontanea pelas ruas seculares do municipio, os embates entre indios cativos e negros fugidos dos engenhos. Os reis, feitores caciques, pagés e outros brincantes que participam dessa fantastica festa teatral e lúdica, repleta de significados, são as autoridades maxímas das ruas e becos, alvo das atençôes das centenas de lentes que os enfocaram de todos os angulos, ajudando a divulgar ainda mais o evento. Dentre todas as manifestações populares que lá sobrevivem de forma heróica, esta é a que conta com participação maciça da população atraindo pesquisadores de varias vertentes e turistas de toda a região, até de outros estados. Os estudiosos não sabem exatamente quando esse folguedo começou, mas é evidente que tomou dimensôes extraordinarias. Sob o comando do mestre Zé Rolinha , que tive o prazer de conhecer e prosear durante o último encontro cultural de Laranjeiras, os Caboclinhos e Lambe sujos não tem donos, e os seus líderes devem conscientizar-se da importancia que têm como preservadores de raízaes e formadores de identidade. Caboclinhos e Lambe sujos, atores de uma ópera popular.Patrimonio imaterial de Sergipe.

JORGE AMADO EM SERGIPE

AUTOR: Thiago Fragata* Sergipe faz parte da vida e obra de Jorge Amado. Escritores dedicaram textos a relação telúrica, sentimental e até familiar do escritor baiano. Rui Nascimento, por exemplo, escreveu Jorge Amado: uma cortina que se abre (2007) rememorando a presença do escritor em Estância nos idos de 1935 e 1937/1938. Mas qual a relação do autor de Gabriela, Cravo e Canela especificamente com São Cristóvão, ex-capital e afamada quarta cidade mais antiga do Brasil? Responder à pergunta encerra o objetivo desse artigo dividido em duas partes. Jorge Amado nasceu em Itabuna, Bahia, no dia 10 de agosto de 1912. Filho de Eulália Leal e de João Amado de Faria, natural de Estância que cedo migrara para Bahia. O ramo da família paterna viveu boa parte da sua experiência entre esse município, Itaporanga e Aracaju. Ainda assim, consideramos factível destacar São Cristóvão na vida e literatura amadiana. O segundo romance de Jorge Amado, intitulado Cacau, escrito aos 20 anos, desvela São Cristóvão em 1933, ano de sua publicação. “Romance proletário”, como o próprio autor definiu, trata da vida acidentada de José Cordeiro, conhecido como Sergipano, filho do proprietário da Fábrica de Tecidos de São Cristóvão. Após a morte do pai, vai trabalhar como operário na fábrica gerenciada pelo tio. Demitido injustamente, migrou então para Bahia, indo trabalhar nas plantações de cacau. Exemplar da literatura engajada do recém-filiado membro do PCB, a obra em tela impressiona pela carga de emotividade e requinte poético. Vale a pena transcrever os parágrafos que versam a quarta cidade mais antiga do Brasil: “A cidade subia pelas ladeiras e parava lá em cima, bem junto ao imenso convento. Olhando do alto, via-se a fábrica, ao pé do monte pelo qual se enroscava a cidade como uma cobra de uma só cabeça inúmeros corpos. Talvez não fosse bela a velha São Cristóvão, ex-capital do Estado, mas era pitoresca, pejada de casas coloniais, um silêncio de fim de mundo, as igrejas e os conventos a abafarem a alegria das quinhentas operárias que fiavam na fábrica de tecidos. Acho que meu pai montara a fábrica em São Cristóvão devido à decadência da cidade, à sua paz e ao seu sossego, triste cidade parada que devia apaixonar os seus olhos e o seu espírito cansado de paisagens e de aventuras”. Embora não tenha nominado o genitor ou a fábrica têxtil, desvelamos o quadro da realidade da ex-capital sergipana daquele contexto. Em 1914 foi inaugurada Fábrica Têxtil Sam Christovam S.A., seus proprietários eram Felix Pereira de Azevedo e Othoniel Amado. Sobre este Amado existe uma situação nebulosa relacionada ao nome do romancista talvez um possível parentesco. Cito apenas memória de Junot Silveira, amigo e editor do jornal A Tarde, edição de 11/7/1993: “figura maior do meio social da cidade [São Cristóvão] era o Dr. Pedro Amado, parente de Jorge Amado, proprietário de uma fábrica de tecidos”. Vejamos como Jorge Amado descreve os sobrados da praça São Francisco, Patrimônio da Humanidade reconhecido pela UNESCO, no dia 1/8/2010. Também, o orfanato da cidade instalado no Lar Imaculada Conceição, antiga Santa Casa de Misericórdia de São Cristóvão: “Nós morávamos então num enorme e secular sobrado, ex-morada particular dos governadores, uma pesadíssima porta de entrada, as janelas irregulares, todo pintado de vermelho, grandes quartos, nos quais eu e Elza nos perdíamos durante o dia brincando de picula. À noite, por brinquedo algum entraríamos num deles, pois temíamos as almas vagabundas do outro mundo, almas penadas que assobiavam e arrastavam correntes, segundo a veracíssima versão de Virgulina, preta centenária que criara mamãe e nos criava agora. Ao lado da nossa casa ficava o ex-palácio do governo, quase a cair, transformado em quartel onde alguns soldados habitavam, sujos e preguiçosos. Em frente, o orfanato, seis freiras e oitenta meninas, filhas de operários e pais ignorados. (...) As casas, todas antiquadas e atijoladas, estendiam-se pela praça do convento e equilibravam-se pelas ladeiras”. Pertinente identificar os sobrados. O primeiro trata-se da atual Casa do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN), que nenhum documento comprova a função de “residência de ex-governadores”, tampouco Ouvidoria. Pesquisa de 2005 revelou que o sobrado foi construído no século XVIII pelo tenente-coronel Francisco Xavier. Teve ao longo do dezenove, como proprietários, o senhor de engenho Luiz Francisco Freire e o barão Felisberto de Oliveira Freire. Quanto ao outro sobrado, trata-se do atual Museu Histórico de Sergipe. Cumpre destacar que este foi “ex-palácio do governo”, entre 1823 e 1855, perdendo essa função com a Mudança da Capital. No início da década de 1930, o sobrado havia realmente se transformado em quartel da polícia. O que era a fábrica no romance que assume o olhar do trabalhador nas relações sociais? Narrado na primeira pessoa pelo protagonista, lê-se: “A fábrica era um caixão branco cheio de ruídos e de vida. Setecentos operários, dos quais quinhentas e tantas mulheres. Os homens emigravam, dizendo que “trabalhar em fiação só pra mulher. Os mais fracos não iam e casavam e tinham legiões de filhas, que substituíam as avós e as mães quando já incapazes abandonavam o serviço”. A obra explicita a predileção no “mundo da fábrica” pelo trabalho feminino e infantil justificado pelos baixos salários. A cidade fabril fotografada no romance relegava aos homens dois destinos: os cafezais de São Paulo ou as plantações de cacau de Ilhéus, da Bahia. Assim, depois de sua demissão, Sergipano prepara as malas e embarca no navio Murtinho, de Aracaju a Salvador. A leitura de Cacau revela um jovem escritor “sensibilizado com as fortes desigualdades sociais do país” - ele havia se filiado ao Partido Comunista Brasileiro (PCB) em 1932. Ademais “inicia o ciclo de livros que retratam a civilização cacaueira”, seguido por Terras do sem-fim (1943), São Jorge dos Ilhéus (1944), Gabriela, cravo e canela (1958) e Tocaia Grande (1984). As páginas de Cacau representam, indiretamente, a prova da presença de Jorge Amado em São Cristóvão. Ele escreveu boa parte da ficção em Aracaju em 1932, mas retrata fielmente a cidade histórica. Sua poeticidade faz contraponto com a crítica social que expõe a injustiça na fábrica de São Cristóvão e na fazenda de cacau da Bahia. Vesta Viana: amiga de Jorge Amado e Zélia Gattai Jorge Amado semeou livros e amigos. Mas falando um pouco da sua biografia e Sergipe, o autor se casou em 1933, com Matilde Garcia Rosa, na cidade de Estância. Desse primeiro casamento nasceu Eulalia Dalila, falecida aos 15 anos. A separação do casal aconteceu em 1944. Autor de Cacau - seu primeiro livro traduzido - conheceu Zélia Gattai em 1945, quando organizava o I Congresso Brasileiro de Escritores. Com ela teve dois filhos, João Amado, 1947, e Paloma, 1951. Juntos, o casal de escritores conheceu o mundo. Em São Cristóvão cultivaram uma amizade duradoura com Maria Vesta Viana. Reservamos espaço para evocar a artista sancristovense. No início de 1970, Jorge Amado e Zélia Gattai passearam pelo nordeste e não esqueceram Sergipe. A História e a cultura da vetusta ex-capital fascinaram o casal que resolveu degustar os ares e os acepipes. Num assédio à casa n. 54, da rua Frei Santa Cecília, onde a dona Noêmia Soares Viana comercializava seus doces típicos, descobriram uma menina pintando casarões e igrejas centenárias em meio ao florido jardim. Na ocasião, a jovem artista presenteou o escritor com uma tela. De volta a Salvador, durante entrevista sobre as impressões da viagem, Jorge Amado comentou a respeito da “jovem artista, meiga, ingênua como os traços retangulares de sua pintura primitivista que ganhou sua atenção, lá na antiga São Cristóvão, cidade retratada em suas linhas e cores”. As considerações do escritor acerca da menina sancristovense geraram um frisson na imprensa baiana, massificado após o roubo da obra que havia recebido de presente da artista. O caso não foi levado à justiça mas teve um desfecho inusitado. O próprio Jorge Amado esclareceu o sumiço do quadro de sua residência, num tom humorado do seu roteiro de viagem Salvador-Aracaju: “Passe na casa de Maria Vesta Viana e admire sua pintura primitiva, compre um dos seus quadros e leve consigo os conventos e igrejas de São Cristóvão, na ingênua criação da môça sancristovense. Tive um quadro de Vesta, logo roubado por Dorival Caymmi que coleciona pintores primitivos às custas dos amigos”. Diante da repercussão do fato, uma brincadeira, na edição especial da Revista Manchete, Jorge Amado veiculou a importância de conhecer São Cristóvão, em Sergipe, seu acervo arquitetônico e uma artista: Vesta Viana. Assim, 1970 figurou como ano-chave na vida da “artista primitivista”, segundo conceito de Jorge Amado. Alguns especialistas cunharam de primitivista, original, desprovida de perspectivas e academicismo, a arte naïf. A propósito, Philipe Jean Marie Meilhac atenta que: “irmana-se, até certo ponto, a arte naïf com a arte popular. Em ambas, o artista projeta na sua criação a mitologia peculiar a sua cultura, a sua terra, a sua gente”. Os fatos citados oportunizaram o sucesso de Vesta Viana. Com o advento do Festival de Arte de São Cristóvão (FASC), que teve sua primeira edição em setembro de 1972, ela teve sua obra consagrada. O FASC, momento e epicentro das expressões artísticas do Brasil, virou cenário onde a artista nativa e suas obras desfilaram com desenvoltura. Em discursos de abertura, exposições coletivas e individuais, debates e cursos ministrados, a artista naïf brilha, pinta, acontece nas décadas de 1970 e 1980. Mesmo sem formação acadêmica, Vesta Viana teve o reconhecimento de especialistas e críticos que fizeram de sua arte objeto de pesquisa. Antônio Olinto e Zora Seljan, por exemplo, chegaram a encomendar de Londres os quadros de Vesta Viana. Colecionadores como o adido cultural do Brasil em Paris, Clovis Graciano, ostentava fascínio pela obra da artista sergipana. Para saciar a fome da clientela Vesta Viana montou ateliê em sua casa. Daí seus quadros difundiram-se pelo mundo, entre os anos de 1972 e 1986. A ajuda de Jorge Amado e Zélia Gattai foi importantíssima. Por intermédio deles sua obra integra o acervo do Museu de Arte Primitiva de Guimarães, Portugal. Diversas instituições culturais receberam seus quadros; na Europa, a França, a Espanha, a Inglaterra; na América, Os Estados Unidos e Canadá. Na cidade que tematiza a obra de Vesta Viana, o mecenas não conheceu apenas igrejas e sobrados, nem saboreou apenas doces e licores, também a peixada e o pirão de guaiamum. Conta Manoel Ferreira que o ilustre escritor almoçou no Bar Candangos e no restaurante do Cristo Redentor com extensa comitiva; gostava de trazer amigos para conhecer os encantos da cidade quatricentenária. O casal de escritores manteve intensa correspondência com a artista sancristovense. Com presteza, Vesta agenciava artesanato, doces e telas, a pedido ora de Jorge Amado, ora de Zélia Gattai. Da amizade fraterna sobraram fotos, exemplares da literatura amadiana, um epistolário e peças eloqüentes da aura e do fetiche do escritor. A relação Jorge Amado e São Cristóvão lembra Irmã Dulce. Ambos nasceram na Bahia e por uma circunstância ignorada por muitos, conheceram, vivenciaram e plasmaram a ex-capital sergipana em suas retinas e memórias. A cidade de 420 anos figura na vida dos dois na década de 1930, permanecendo até o ocaso. Disse Jorge Amado a respeito da ex-capital: “Há uma paz na cidade, uma atmosfera azul, uma doçura de vida”. Já Irmã Dulce afirmava que a Bahia deu pra ela a família e São Cristóvão, a certeza de sua vocação religiosa.

AO JUMENTO, COM CARINHO

Gilles Lapouge Está na hora de lembrar dos jumentos. Os jornais falam muito do Festival de Cannes, do aquecimento global, do naufrágio da Grécia, mas aos jumentos quase ninguém se refere. O cavalo é mais favorecido. É sempre o foco da atenção pois tem elegância, brilho. Domingo vai às corridas, onde caminha gingando como uma estrela de cinema. Os homens usam belas calças e as mulheres lindos chapéus para montar nele. O jumento não tem a mesma presença. É chamado de "burro" e de "asno". Palavras ofensivas. Tem cor de estopa. É desnutrido. Por que esse rosário de afrontas? Se eu fosse jumento, faria um motim. Brigitte Bardot falou recentemente dos jumentos, os do Brasil. Ela ficou furiosa ao saber que o Rio Grande do Norte, visando a criar uma nova fonte de renda, teria aceitado exportar 300 mil jumentos por ano para a China para nutrir as indústrias alimentícias e cosméticas desse país. Eu compartilho da cólera de Brigitte. A rarefação dos jumentos nos campos - no Nordeste brasileiro, no sul da França, mesmo na Palestina - sempre me pareceu uma desgraça. Fizemos tanta coisa juntos, eles e nós - as pirâmides, as minas, as rodas d'água, as catedrais, a agricultura... O jumento também transformou uma desvantagem em mérito. Ele sofre de um problema de vértebras: tem uma a menos. Mas, como é dono de um espírito dócil, aceitou esse infortúnio, que lhe dá pavor de correr e lhe tira o fôlego quando o dono o faz trotar. Na verdade, ele transforma essa fraqueza em força. Como suas vértebras dorsais são bastante desenvolvidas, seu dorso é saliente e seus rins são fortes. Essa constituição singular se ajusta à sela, de madeira ou de couro. Todas essa inferioridade e a maneira com que ele teve de assumi-la compuseram o destino do jumento. Ele não é bom para correr e não sabe galopar. Em compensação é ótimo para puxar charrete, mover as rodas que trazem a água para a superfície no deserto, carregar feixes de trigo e sacos de terra e pedra. É bom também para descer ao fundo das minas de carvão, onde, muitas vezes, de tanto viver no escuro, acaba ficando cego. O jumento participou de todas as aventuras do homem. Suou por nós. Perdeu seu fôlego por nós. Morreu sob nossos golpes. E, quando os engenheiros inventaram o motor de explosão, a moto, o trator e o caminhão, adeus jumento! Adeus, velho servidor! Vamos vendê-lo para a China para que as pessoas o comam. Nós o jogamos como se joga uma roupa esgarçada, uma gilete sem corte. Adeus, velho amigo, mas você não serve para mais nada! Gosto muito dos jumentos do Nordeste brasileiro. Venho testemunhando sua derrota há 40 anos. E vi esta aberração: motos ruidosas, nauseabundas, perigosas, substituindo jumentos para cercar os rebanhos, em meio a um atroz odor de combustível. Em 1974 fiz uma longa viagem pelo Nordeste do Brasil. Sozinho. Fui de cidade em cidade, ao acaso, segundo meu desejo, em ônibus que rodavam 10, 12 horas por dia. Os jumentos já começavam a desaparecer, mas ainda eram numerosos. Faziam parte da paisagem nordestina. Quando chegava aos vilarejos assolados pela seca, eu ia cumprimentá-los. Eles me lembravam aqueles jumentos que conheci e amei na minha infância, não no Brasil, mas na França, nas montanhas austeras e pedregosas da Provença. Eu falava com os jumentos de João Pessoa ou de Epitácio Pessoa. Temos boas lembranças em comum, os jumentos do Nordeste e eu. Hoje, quando atravesso esses lugares ermos, em meio à barulheira dos caminhões e das motos, procuro por todo o lado as orelhas, as belas orelhas sensíveis, e elas sumiram. Eu respirava seu odor. Olhava seus grandes olhos melancólicos e era como se um tapete mágico me conduzisse de volta aos tempos felizes da infância. Foi nessas longas noites no Nordeste que compreendi por que tanto amava os jumentos. Do outro lado do mundo, encontrei os mesmos animais, tão bonitos, tão fortes, tão resignados. Como seus congêneres da Provença, os pequenos jumentos do Nordeste se aproximavam de mim e cheiravam minhas mãos. Eles gostavam do meu cheiro, e eu do deles. Certas noites, nesse longo périplo solitário entre Salvador e Natal, Recife e Terezinha, sentia uma certa angústia pelo fato de estar só. Então ia ver os jumentos. Tínhamos este ponto em comum: detesto a solidão, os jumentos, também. Se um jumento está sem companhia, fica infeliz. Entedia-se a ponto de parecer que pode morrer de tédio. O jumento não é só corajoso e útil: também tem caráter. Apesar de sua cortesia e indulgência com relação às loucuras e vilanias dos homens, jamais transige em questão de princípios. Na Bíblia, uma jumenta impediu que seu senhor, o adivinho Balaam, bloqueasse a passagem do povo de Israel quando este se aproximava da Terra Prometida. Naquele dia, os homens estiveram muito perto do desastre. Se a jumenta não tivesse dado uns bons coices em Balaam, os judeus jamais teriam continuado sua epopeia e isso teria provocado uma grande confusão na Bíblia, na história religiosa e em toda a História. Teríamos que começar tudo do zero. E Deus, como iria se sair dessa? Em recompensa, o jumento teve o privilégio de aquecer com seu sopro o Menino Jesus na manjedoura. O jumento também teve a honra de servir de montaria para Cristo quando Ele entrou em Jerusalém, antes da Paixão. Jesus ficou muito emocionado e marcou o dorso do jumento com um sinal da cruz. Na Provença nós chamamos de "cruz de Santo André". Fiquei comovido ao encontrar nos jegues do Nordeste o mesmo sinal da cruz. O jumento é bem considerado pelos deuses. Enquanto os homens o condenam ao insulto, ao desprezo, à pancada e ao trabalho perpétuo, as sociedades religiosas têm consideração com ele. A história santa está repleta de jumentos. A Bíblia o cita 133 vezes, um recorde entre os animais. Em Josué, ficamos sabendo que o jumento foi montado por judeus da mais alta sociedade, príncipes e damas. Cada patriarca tinha seu jumento. Abigail, que vai ao encontro de David, sela seu jumento (Samuel, 25) Zorobabel, depois da Babilônia retorna a Jerusalém montado no dele. Sansão, quando 3 mil filisteus o atacam, usa uma queixada de jumento para revidar e os mata. O jumento vai do Velho Testamento para o Novo. Jesus escolheu um burrico, não um cavalo, para entrar em Jerusalém. Em Roma, os pagãos ridicularizavam a religião cristã por causa de sua amizade com os jumentos. Um pouco mais tarde, encontramos muitos místicos cristãos no Egito que se entregavam a penitências terríveis: viver sentados na ponta de uma coluna de pedra, numa árvore, quase imersos num pântano ou então se mantendo de tal modo imóveis que os pássaros faziam ninho em suas mãos. Os pagãos se divertem com esses fanáticos. E os chamam de "jumentos". É verdade que mesmo em países cristãos os jumentos foram às vezes maltratados. Na Espanha, quando Isabel, a Católica, mandava queimar uma feiticeira, esta era amarrada nua num burro para que, à pena de morte, se adicionasse o suplício de partir da vida no dorso de um animal desprezado e obsceno. Na França os professores durante muito tempo colocavam um chapéu de asno na cabeça dos maus alunos. Por toda parte o jumento foi relegado ao desprezo e à injúria. Ao longo da história (salvo nos países do Oriente Médio), ele esteve no mais baixo nível da sociedade. Pior: foi sempre o bode expiatório dos mais humildes, o doméstico dos domésticos, o escravo dos escravos, o proletário dos proletários. Alguns intelectuais foram em seu socorro. Victor Hugo escreveu, no fim da vida, um imenso poema glorificando o jumento. O grande historiador Michelet sublinhou o papel do burro na história dos homens, e o grande naturalista Buffon defendeu o jumento contra o cavalo. O filósofo da Renascença Giordano Bruno, último homem queimado pela Inquisição, em 1600, fez do jumento um modelo de espírito e erudição. Os sábios que acompanharam Napoleão Bonaparte no Egito, em 1798, montavam jumentos. Quando a tropa foi atacada pelos mamelucos, os oficiais franceses gritaram: "Protejam os jumentos no centro". No geral, pintores e poetas amam o jumento. Os cabalistas judeus descobriram que a palavra "jumento", em hebraico, tem as mesmas letras que a palavra "matéria". E concluíram que o jumento é "o mestre dos segredos do universo". Têm razão. O jumento entende tudo: se é idiota, é idiota como O Idiota de Dostoievski, o príncipe Muichkine - que é genial porque, se não compreende as coisas corriqueiras, compreende, por outro lado, as mais obscuras. O jumento sabe tudo. Ele não trota nas mesmas paisagens que nós. Apenas aparenta compartilhar nossos caminhos, quando na realidade está em outro lugar, vem de outro lugar, vai para outro lugar. Ele atravessa educadamente nossa geografia sem fazer ruído para não nos perturbar, mas na verdade não caminha no mesmo passo que nós. Somente os poetas compreenderam a nobreza do jumento. Na França, no início do século 20, Francis Jammes escreveu uma oração para eles. É tão bela e luminosa que eu vou citá-la: Prece para chegar ao Paraíso em Companhia dos Jumentos Quando for a hora de ir a vosso encontro, meu Deus, fazei com que seja num dia em que o campo esteja brilhando em festa. Pegarei meu bastão e pela grande estrada irei, e direi aos jumentos, meus amigos: sou Francis Jammes e vou para o paraíso, porque não existe inferno na terra do Bom Deus. Eu lhes direi: venham pobres animais queridos, que com um brusco movimento de orelhas se livram das moscas, dos golpes e das abelhas. Que eu apareça diante de Vós entre esses animais que amo tanto porque baixam a cabeça docemente e juntam as pequenas patas de uma maneira tão gentil que dá pena. Meu Deus, fazei com que eu chegue até Vós com esses jumentos. Fazei com que os anjos nos conduzam em paz pelos riachos ensombreados em cujas margens tremulam cerejeiras, e fazei com que nessa morada das almas, sob vossos divinos olhos, eu me assemelhe aos jumentos, cuja humildade e doce pobreza se refletirão na limpidez do amor eterno. Certamente, com o passar do tempo e dos milênios (ele está entre nós há 5 mil anos) o jumento começa a entender que as coisas não vão muito bem para ele, mas não se revolta. Sua tática é sutil. O cérebro humano não a alcança. O jumento é submisso e glorioso ao mesmo tempo, resignado e irredutível, escravo e soberano, vencido e vencedor. Ele dá cambalhotas nas primaveras onde não já não estamos. Encontrou obstáculos e os contornou. Ele se salvou do tempo. Sobre seus belos cascos, trota nas pradarias onde as horas não soam. Se o espancamos, ele nos olha com um olhar incrédulo e belo. Não fica com raiva. Tem pena de nós. Não nos culpa, só nos observa. Ele gostaria de nos ajudar a ser menos vingativos. E nos consola de nossas maldades. "Não se preocupe", parece dizer, arreganhando os beiços, "não é sua culpa. Você é assim, mas isso vai passar. É um mau momento, uma má eternidade. Depois, você vai ver, tudo será melhor." Durante a 1ª Guerra Mundial, em Verdun, inúmeros soldados foram mortos e enterrados. Inúmeros jumentos também foram mortos, mas não foram enterrados. Há alguns anos, um pintor de Auvergne (região montanhosa no centro da França onde há muitos jumentos), Raymond Boissy, manifestou sua indignação. E propôs que um monumento fosse erigido aos mortos, um monumento ao Jumento Desconhecido (como há em Paris o Túmulo do Soldado Desconhecido). É uma ótima ideia. Aqueles jumentos, o Exército francês os fez vir de barcos do Magreb, do Marrocos, porque os jumentos dessa região são pequenos, dóceis e muito fortes. Eram capazes de transportar 150 quilos de obuses. Rastejavam nas trincheiras levando munição para os soldados que se encontravam em casamatas e fortins. Claro, os alemães descobriram e seus artilheiros bombardearam os ventres dos pequenos jumentos marroquinos. Foi uma carnificina. Aqueles que sobreviveram e retornaram às linhas francesas, contentes de reencontrar seus senhores, estavam feridos. Então foram abatidos. 150 mil jumentos foram mortos em Verdun. O solo de Verdun está repleto de valas comuns de jumentos. Ali eram jogados os cadáveres desses animais tão gentis, suas pequenas coxas quebradas, as pequenas patas rígidas, seus olhos, tão belos, tão indulgentes, tão resignados. Como não chorar? / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

quarta-feira, 6 de junho de 2012

QUEM FOI JOÃO BEBE ÁGUA

“O seu feito grandioso Não se passou por banal Mas morrera obcecado Por um retorno irreal São Cristóvão nunca mais Seria a capital…” (Francisco Passos Santos – Chiquinho do Além-Mar) Por Joanne Mota Morador do quarteirão nº 19, da São Cristovão Capital, o lendário João Nepomuceno Borges nasceu em São Cristóvão, no ano de 1823, era filho do capitão Francisco Borges da Cruz e tinha um irmão de nome Silvério da Costa Borges. Sua escolaridade é desconhecida, mas sabia ler e escrever e exerceu durante muito tempo cargos de grande representatividade na sociedade. A história conta que João Bebe-água foi escrivão interino da Alfândega e Mesa de Rendas, de Santo Amaro; vereador; Juiz de Paz na cidade; fiscal da Câmara em 1872; e também foi “patrão-mor” da Mesa de Rendas da Barra da Cidade, hoje Barra dos Coqueiros. Foi o homem que arregimentou 400 homens em protesto contra a transferência da Capital para o povoado Santo Antônio do Aracaju. Historiadores destacam que essa figura, que se tornou folclórica, publicou trabalhos no Pasquim do partido sob pseudônimo de ‘Nunes Machado’. João escolheu este pseudônimo inspirado na Revolução Praieira, já que Nunes Machado era, à época, o principal ícone do partido liberal no Brasil, desde que fora assassinado a frente dos revoltosos da Rua da Praia, em Recife, na eclosão da Revolução Praieira, em 31/12/1848. Casou-se aos 50 anos, não temos ciência do nome da esposa, segundo o seu contemporâneo, Serafim Sant’iago, em publicação no ‘Annuario Christovense’, ele morreu viúvo. Durante os anos que sucederam a transferência da capital o “jacobino sancristovense”, como ficou conhecido, manteve o juramento de não pisar em Aracaju, período que observou piamente suas obrigações religiosas. Além disso, guardava sempre atrás da porta de sua casa foguedos que seriam usados quando a Capital voltasse a São Cristovão. Nepomuceno Borges era componente da Irmandade do Amparo dos Homens Pardos, frequentando a igreja regularmente. Nessa irmandade, ele exerceu quase todas as funções: foi sineiro, zelador, sacristão, tesoureiro, avalista e procurador. Sobre as suas peculiaridades físicas, a história conta que era de baixa estatura e um tanto gordinho; tinha a cor de um pardo amarelado em tom bilioso, cabelos amealhados; trajava jarreta e trazia sempre um lenço de rapé e uma catarina, como ele titulava uma figura preta feita de ponta de boi, onde guardava fumo torrado . Entre torrados e doses de aguardente que faziam parte do cotidiano de muitos naquela época, inclusive de Dona Maria Paiva Monteiro, mais conhecida como ‘Dona Marinete’, que cuidava da quitanda de seu pai, conheceu bem o João. Segundo ela, desde pequeno João Bebe-Água sofreu com o desprezo, inclusive de seu pai, e a transferência só foi mais um fato que contribuiria para a vida melancólica desta figura, fato que o levaria a se entregar ao álcool. No entanto, essa constatação não é universal, segundo historiadores a nominação “bebe-água”, foi conseguida graças a exibição da peça teatral “João Bebe-Água”, exibida na abertura do IV Festival de Arte de São Cristóvão (1975), de José Severo dos Santos e Alberto de Souza Oliveira. Sobre sua morte, existem várias histórias e controvérsias. Os autores modernos se atrapalham e não conhecem ao certo como discorrer sobre esse assunto. De acordo com pesquisa realizada por João Pires Wynne, o enterro desta figura data de 1896, por outro lado, Sebrão Sobrinho chegou a assegurar que o rebelde de São Cristóvão morrera em 1890. O historiador Pedro Machado, que ignora o ano de morte, apenas localiza sua última residência e destaca que João Bebe-Água morreu em sua residência ainda existente em 1938, disjunta e construída ao da ladeira de São Francisco, perto do convento deste santo. Contudo, todos os historiadores concordam com uma coisa: João Bebe-Água morreu pobre, sozinho e desacreditado, mas nunca desistiu do sonho de ver São Cristovão voltar a ser Capital e tampouco saiu de São Cristovão para conhecer a nova Capital que crescia em Aracaju. Fontes: ‘João Bebe-Água o rebelde de São Cristóvão’ – De Autoria de Francisco Passos Santos – Chiquinho do Além-Mar

ZÉ ROLINHA, MESTRE DA CULTURA POPULAR

O município de Laranjeiras é conhecido pelos sergipanos como o berço da cultura popular; as danças, folguedos e crendices populares se destacam de modo peculiar, através de um povo que conhece e valoriza as tradições que refletem, interpretam, e até se reinventam os costumes e as origens das comunidades onde surgiram. É por conta desse destaque da Cultura popular que o mestre da Chegança e dos Lambe-sujos, José Ronaldo de Menezes (Zé Rolinha), está embarcando no próximo sábado, (12), rumo à Espanha, onde irá ministrar palestra para estudantes e pesquisadores da Universidad de Alicante, durante um seminário sobre tradições folclóricas brasileiras. Além de ministrar palestra, o ilustre ícone da cultura popular, deve encontrar e trocar experiências com os coordenadores das tradicionais festas de Mouros e Cristãos, celebradas em Valência neste mês de maio. Segundo o mestre Zé Rolinha, este é o reconhecimento de um trabalho desenvolvido ao longo da história. “É uma grande satisfação poder representar Laranjeiras e Sergipe em um evento tão importante fora das fronteiras brasileiras. Além disso, vou até a Espanha mostrar às novas gerações de europeus uma cultura que veio de lá mesmo (caso da Chegança), uma manifestação centenária que se mantém viva em Laranjeiras. Portanto, este é o reconhecimento de um trabalho desenvolvido ao longo da minha história”, disse. Zé Rolinha aproveita este momento também para destacar o apoio que vem recebendo da Prefeitura de Laranjeiras. “A atual administração de Laranjeiras vem promovendo grandes transformações positivas no que diz respeito ao incentivo à cultura e às manifestações folclóricas. Não é à-toa que a cidade hoje ganha o título de Capital da Cultura Popular. Isto não veio por acaso, mas, sim, através do diálogo e de um trabalho executado em parceria com os mestres e os 23 grupos folclóricos existentes na cidade. O Governo de Sergipe também é um grande parceiro nesta luta. Foi através do edital de intercâmbio e difusão cultural, que, no próximo sábado, estou viajando à Espanha. Só tenho a agradecer o empenho de cada um”, ressaltou, acrescentando ainda que a doutoranda Bárbara Lito também é fundamental. Investimentos em Cultura - Para garantir a tradicionalidade dos eventos, a prefeitura de Laranjeiras não mede esforços no sentido de proporcionar a todos os brincantes a infraestrutura necessária para produzir e divulgar a expressão cultural da cidade. Tudo é devidamente pensado e planejado antecipadamente, e o resultado final é bastante positivo, principalmente pela grande quantidade de turistas que visitam o município, como também a satisfação e alegria dos laranjeirenses em participar desses eventos culturais. Assim, algumas manifestações folclóricas como o Reisado, o Guerreiro, o Cacumbi, a Taieira, o Samba de Pareia, o São Gonçalo, o Batalhão de São João, a Chegança, os Penitentes, os Lambe-Sujos e Caboclinhos e o Micareme já são conhecidos por sergipanos e milhares de turistas que visitam Laranjeiras durante os tradicionais eventos, que já entraram para o calendário turístico e cultural de Sergipe. Entre os investimentos, se destacam a criação da Lei dos Mestres, a elaboração do Plano Municipal de Cultura, que vai vigorar por dez anos, as grandes obras de restauração de casarios e antigos prédios públicos, como o Bureaux de Informações Turísticas, a construção do Centro de Artesanato, José Monteiro Sobral e tantos outros. Na avaliação do Secretário Municipal de Cultura, Irineu Fontes, a intenção da prefeita Ione Sobral é incentivar o desenvolvimento sustentável da população. “Com os grupos folclóricos não foi diferente, hoje, através dos investimentos realizados, eles estão mais independentes, assim como, nós gestores também estamos estabelecendo mais diálogo. Portanto, através dos investimentos realizados já é possível notar uma melhoria significativa na estrutura e organização dos grupos folclóricos e dos eventos culturais. São medidas que estão fazendo a diferença e resgatando a história e a cultura de um povo”, frisou o secretário. (Fonte: Secretaria Municipal de Cultura de Laranjeiras/Sergipe)

CONHEÇA NOSSOS ARTISTAS: HORÁCIO HORA

Tributo à Horacio Hora Thiago Fragata* Nos idos de 1959, ao conceber o projeto expográfico do Museu Histórico de Sergipe, Jenner Augusto idealizou sala dedicada a obra de Horácio Hora. Com o apoio do irmão, Junot Silveira, e do próprio Governador, Luis Garcia, assim fez.[1] Em abril de 2007 a instituição cerrou as portas para uma restauração e desde sua reabertura em novembro do ano passado que o público ansiava pela reativação da Sala Horácio Hora, visto que a instituição detém maior acervo do artista romântico. Nascido na cidade de Laranjeiras, no dia 17 de setembro de 1853, filho de Maria Augusta Hora e Antônio Esteves de Souza, cedo Horacio Hora revelou inclinação para o desenho e artes plásticas. Fez os primeiros estudos na terra natal. Seu talento sensibilizou a Assembléia Legislativa da então Província de Sergipe que concedeu subvenção para estudar e aperfeiçoar seu trabalho na Escola de Belas Artes de Paris, França. Falecido no dia 28 de fevereiro de 1890, em Paris foi enterrado, longe dos familiares, da sua pátria. Na imprensa baiana, a notícia foi publicada somente em 1 de abril.[2] O principal estudo biográfico sobre o artista foi publicado por Baltazar Góis, onze anos depois de sua morte. Na “Biographia de Horácio Hora: pintor sergipano”, de 1901, o autor discorre sobre a vida e a obra do artista, com adendos de João Ribeiro, Gumercindo Bessa e Manuel dos Passos.[3]Recentemente, chegou ao nosso conhecimento um artigo de Manuel Curvelo de Mendonça (1870-1914) não-citado na referida biografia. Independente de qualquer justificativa evocada para o esquecimento de Góis, reproduzimos o achado a fim de endossar futuras pesquisas: “Não posso resistir ao impulso de trazer para aqui, posto que confusamente, as impressões amargas que me tocam o espírito, ao ter a notícia da morte de Horácio Hora, o saudoso artista sergipano. Não sei mesmo o que contribui mais para avivar este desejo: se a simpatia que desde criança tenho pelo ilustre pintor, ou se a consternação que nos deixa sempre no espírito o desaparecimento de uma dessas raras personalidades, que vivendo obscuramente, entregue ao serviço de uma causa, de uma ciência, ou de uma arte, deixam, morrendo, um vazio tanto maior, quanto mais difícil é de ser preenchido, o que não acontece, ao menos entre nós, com esses grandes da política, aos quais aliás rendem-se, em momentos idênticos, suntuosas homenagens. É provável que essas duas circunstâncias hajam pesado do mesmo modo neste meu empreendimento, nelas, pois, encontra ele sua explicação e justificativa. De todas as manifestações intelectuais de um povo qualquer, a arte é, fora de toda dúvida, uma das que mais próprias são para significar o grau de adiantamento em que ele permanece. Dar à matéria a forma de suas idéias e de suas crenças, traduzir do modo que lhes é permitido, o estado do seu espírito, tal é, conforme o que me parece de mais verossímil, uma das primeiras preocupações das sociedades, ao se constituírem. Afora o pendor natural pelo belo, tanto mais palpável quanto mais civilizado é o povo onde ele se faz sentir, tal é a causa imediata do apreço em que são tidas as artes nas grandes nações e do acoroçoamento que lhes deve um governo bem intencionado. Entre nós, todavia, a política nos tem assoberbado. Eis porque “a nossa instrução artística”, na frase caustica de José Veríssimo, o novel, mas já tão autorizado crítico paraense, “envolve-se ainda nas sombras do mito”. Ma não é isto o que me importa neste momento. Penso firmemente que Horácio Hora merece um completo estudo crítico, que nos venha revelar todas as variações e irradiações de que era capaz e seu belo talento artístico. Não serei eu quem leve, quem pretenda levar avante semelhante cometimento, para um tal estudo a falta dos documentos indispensáveis seria um enorme obstáculo, se maior e em primeira linha uma outra não viesse se antolhar – a minha incompetência. O Brasil, ou pelo menos, Sergipe precisa saber quem foi seu filho que a morte acaba de surpreender em Paris, quero dizer, no único lugar onde ele pode dos recursos de sua arte, honradamente viver. Nesse estudo deve ser salientado o “nacionalismo” de seus quadros e... não hesito em dizer, de todos os seus quadros, visto como penso que esse notável caráter há transparecido em seus trabalhos, com a dupla vantagem de torná-lo um artista verdadeiramente brasileiro, digno de nós, e de conservá-lo em sua originalidade, isto é, deixando entrever neles um “quê” indefinível, que é o reflexo do supremo encontro de nossa natureza inesgotável, que não se afastou do artista em sua peregrinação pelo velho mundo e que tão claramente se manifestou nos últimos momentos de sua vida, nestas palavras de amor: “longe da pátria”. Seja permitido aqui fazer uma pequena digressão. Com ternas reminiscências da infância, ainda tenho bem vivas na memória as impressões de uma tarde em que estive com o ilustre pintor em Laranjeiras, nas encostas de um dos morros dessa cidade, quando ele se entregava aos seus trabalhos de arte. Eu passava pela estrada que vai ter a Igreja do Bomfim, sita no cume do outeiro do mesmo nome, quando avistei-o embebido no seu mister. Semelhante descoberta era de natureza a atrair-me a curiosidade, tão acesa quanto era natural na idade em que eu estava. Lá chegando, só por instinto, reprimir a ansiedade de fazer-lhe mil perguntas, no que fui sempre muito pródigo a ponto de tão poucas vezes tornar-me imprudente. Naquele instante, porém, fui de uma extraordinária paciência, que não passou despercebida ao nosso artista. Num intervalo em que parecia descansar como quem termina a elaboração de uma estrofe, virou-se para mim, que sentado numa anfractuosidade da encosta, entretinha-me quedo na contemplação do que não compreendia, e perguntou-me o que achava no que via, isto é, nos traços que esboçavam a tela. - “Não sei como dessas linhas possa sair a cópia fiel desse belo quadro que ali vemos, mas gosto de ver como se faz aquelas bonitas pinturas que tem no seu gabinete”, disse-lhe eu com a intimidade e afoiteza das crianças. Não tenho fiel recordação do mais, porém sei que fiquei muito satisfeito com a palestra e votando-lhe já uma embrionária admiração, porque via nele um homem diferente dos outros, visto fazer coisas que os outros não faziam. Hoje, traduzindo esse “ser diferente dos outros” por – gênio – folgo ao considerar que naquele tempo eu já o tinha como tal. Peza-me bastante estar na impossibilidade de acrescentar aqui uma resenha mais ou menos perfeita de seus trabalhos. Alguma coisa que sobre mérito afirmei, quer me parecer seja de fácil verificação. O “nacionalismo” tem no quadro “Pery e Cecy” atualmente na Bahia, a mais eloqüente confirmação do que eu disse a esse respeito. Creio que a representação da deliciosa passagem do Paquequer em nada desmerece da bela criação de José de Alencar. Pela natureza dessas linhas, cujo alvo não ultrapassa o mero desejo de associar minhas mágoas as de meus conterrâneos pelo triste fim de nosso ilustre irmão, por sua natureza, digo eu, tendo-se ela em vista, se me desculpará que eu só tenha tido para ele elogios. Defeitos, se os tem, e censuras, se as merece, só a crítica compete apontá-lo e fazê-las, mas... com sobriedade e cordura para não afugentar os poucos talentos que em tal arte ousam se desenvolver entre nós, a ponto de se tornarem “avis rara”. Uma homenagem ao honrado artista sergipano, cujo laureado pincel a morte acaba de paralisar tão atrozmente, - eis o destino destas despretensiosas palavras. E... Como precedi-as de um belo pensamento de Bernardin de Saint Pierre [um túmulo é um monumento colocado no limite de dois mundos], fecho-as com uma não menos expressiva sentença de Álvares de Azevedo, um dos maiores escritores brasileiros antigos e modernos: “é ainda uma aurora sem dia que perdeu-se numa tempestade de inverno”.[4] Eis o artigo redigido por Manuel Curvelo de Mendonça, em Recife, em abril de 1890, e publicado em Sergipe, em junho daquele ano. Sincero e emocionado com a morte do artista a quem admirava. Para não esquecer Horácio Hora, ainda que a vida tenha sido breve, sua arte, aliás, o artista vive em suas obras. Convido o leitor, apreciá-las. O Museu Histórico de Sergipe funciona de terça a domingo, das 10 às 16 horas. * Thiago Fragata é historiador e poeta, especialista em História Cultural (UFS), sócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Sergipe (IHGSE) e diretor do Museu Histórico de Sergipe (MHS). E-mail: thiagofragata@gmail.com Artigo publicado no Jornal da Cidade. Aracaju, ano XXXIX, n. 22/6/2010, p. B6

ARTE SERGIPANA EM PARIS

A arte sergipana em Paris Cândido Aragonez de Faria é destaque na história da caricatura Luiz luiz Antonio Barreto Cândido Aragonez de Faria (Foto: Divulgação) O nome do múltiplo artista Cândido Aragonez de Faria, nascido em Laranjeiras, órfão do cólera, tem destaque na História da Caricatura no Brasil, de Herman Lima, ainda que sua naturalidade permanecesse oculta. Coube ao professor Antonio Luiz Cagnin, como bolsista, e principalmente a Felipe Aragonez de Faria, revelar todo o caminho percorrido por FARIA desde que deixou Laranjeira, ainda criança, e foi para o Rio de Janeiro onde sua mãe tinha família, até a genial presença nas artes francesas, como autor de mais de três centenas de cartazes dos filmes da Casa Pathé, todos de admirável nível técnico. Sergipe ignorou o filho artista, mas aqui e ali forma-se uma nova geração interessada em cinema e em arte que, certamente, saberá fará aflorar o talento genial. Na França, no entanto, conhece-se FARIA e ele é sempre citado nas antologias e compêndios cinematográficos. Henri Bousquet, historiador do cinema na França, põe no seu livro Catalogue Pathé dos anos de 1896 a 1914, um texto sobre os colaboradores dos Irmãos Pathé, considerada a grande abrindo espaço, com foto, para destacar a originalidade da arte de FARIA, contribuindo para a ressurreição de uma Arte e de uma indústria. O jornalista e professor Ary Bezerra Leite, do Ceará, autor de vários livros sobre o cinema e a fotografia, cedeu-me cópia do texto de Henri Bousquet, um tributo ao artista sergipano que conti9nua, na França, considerado e exaltado pela sua arte. É Bousquet quem insiste sobre a nacionalidade de FARIA, como a partilha o sucesso com seus conterrâneos de Sergipe, enquanto fixa o valor do artista e a qualidade de suas obras , apontando para o Atelier da rua Steinkerke, endereço famoso do mestre Cândido Aragonez de Faria. Hélvio Maciel, de formação em publicidade e em filosofia, deparou-se em Paris com alguma coisa do FARIA que o emocionou. Acostumado a compor peças publicitárias, emocionou-se com o encontro com a arte sergipana na capital francesa. Ele viu, nas ruas parisienses, que FARIA sobrevive, embora tenha já completado 100 anos de morto, no passado 2011. A arte do laranjeirense, que foi, até certo ponto, contemporâneo de outro pintor de Laranjeiras – Horácio Hora, que tem merecido, em Sergipe, honrarias diversas. Será preciso, então, insistir com a divulgação da biografia de Cândido Aragonez de Faria, com o propósito de fortalecer a fortuna crítica dos sergipanos que numa das diásporas deixaram a terra e construíram nomes mercê do talento, do trabalho, da capacidade inovadora, que sempre uma característica das gerações de emigrados, que respondempelos alicerces fundamentais da cultura brasileira. A UNIT/Instituto Tobias Barreto montou, em ensejo do centenário de morte de FARIA, um painel com o retrato do artista e algumas de suas obras, reproduzidas. Laranjeiras, há alguns anos, montou uma exposição com reproduções de Cândido Aragonez de Faria, na Casa de João Ribeiro. Alguns pesquisadores, ligados aos diversos cursos universitários, têm demonstrado uma forte curiosidade sobre a produção do artista. Seu neto, Felipe Aragonez de Faria, curador da obra do avô, tem mantido viagens regulares ao Brasil, quando vem a Sergipe, pesquisando e completando suas anotações, reunidas em pelo menos três livros: um, sobre o médico José Cândido Faria, patriarca sergipano da família; outro sobre os Aragonez, desde a origem, a transferência para o Brasil, a vida em Laranjeiras, a mudança para o Rio de Janeiro, seguindo-se Porto Alegre, Buenos Ayres até aportar em Paris. Falta editor e seria de bom alvitre que o Governo do Estado, com as parcerias possíveis, liderasse o movimento para restaurar a biografia artística de FARIA. Temos, enfim, uma motivação artística e cultural, que não se encerra na tipicidade da arte de Cândido Aragonez de Faria na França, nas últimas décadas do século XIX e primeiras do século XX. Ilustrado, atento ao movimento das artes, o Governador Marcelo Deda seria o líder mais necessário para defender o patrimônio artístico do FARIA, trazendo para Sergipe parte do acervo que Paris guarda, zelosamente. Será preciso mobilizar a inteligência, através de cursos, oficinas, conferências e outras promoções, para criar um movimento de restauro de uma biografia sergipana, grande em sua linguagem de criação, enorme na fortuna crítica que é guardada na capital francesa. E contar com a mídia, em todas as suas linguagens, para dar a todos a exata dimensão da importância de trazer para casa, depois de tanto tempo, mais um sergipano de valor.

MUSEU AFRO BRASILEIRO DE SERGIPE

Quando se fala em casa de memória voltada para a coleta, pesquisa, estudo e exibição de aspectos da cultura afro-brasileira, o Museu Afro-Brasileiro de Sergipe é referencia, por ser o único no estado com essa tipologia, além de estar localizado no coração do Vale do Cotinguiba, núcleo da produção açucareira do período colonial, e, portanto, polo aglutinador da mão de obra africana, o que lhe confere um status diferenciado e um leque imenso de possibilidades, no trato da relação museu / acervo / comunidade. Instituição gerida pelo governo do Estado de Sergipe, o MABS foi inaugurado em Janeiro de 1976 e oficializado em Fevereiro do mesmo ano, pelo decreto número 3339 (Fonte: Raul Lody p196), com a missão de preservar e expor peças ligadas à cultura afro brasileira e sua influencia no sincretismo religioso do nosso povo. Nele estão catalogados objetos de culto negro, fotografias, telas, documentos e trajes dos orixás. (fonte: cartilha cultural Laranjeiras). O MABS hoje funciona em um prédio desgastado pelo tempo, à mercê dos males comuns às instituições que operam em antigas residências, não dispondo de infraestrutura adequada para abrigar seu acervo e as pessoas que lá trabalham. O antropólogo Raul Lody afirma que “vê-se hoje como se ampliou o conceito espacial de museu e mesmo seu histórico papel legitimador de povos, culturas e civilizações. Com isso também, em contextos globalizados, a compreensão patrimonial fundamentalmente unida à função preservacionista do museu é trazida para discussões mais democráticas, e, hoje o patrimônio cultural assume o mesmo sentido de testemunho de um grupo social, de um Estado, de um segmento étnico, de um indivíduo” pág. 18. No entorno do museu está presente um patrimônio material e imaterial valioso: o casario colonial, templos católicos e protestantes, terreiros de candomblé e trapiches, tradições, costumes, manifestações culturais e os descendentes dos milhares de escravos que na região viveram, enfrentando problemas sociais que foram decorrentes dos 400 anos de escravidão. Nessa massa humana está viva a oralidade, as historias passadas de boca em boca através dos tempos, á procura de algo em um lugar que os represente dignamente e com que se identifique. O MABS, possuidor de todos os atributos que podem cumprir essa função, no entanto, parou no tempo , deixando-se envolver pela poeira da estagnação, fruto da falta de políticas oficiais que realmente entendam esse espaço como uma ferramenta de múltiplo uso, entre os quais a socialização, transformação social, busca de identidades e referencias.

O ÚLTIMO SUSPIRO DO CARANGUEJO

Nesse braço do Rio Cotinguiba eu passei os melhores anos da minha vida, na casinha de pau a pique e pindoba que meu pai construiu com as próprias mãos, aonde as águas escuras e viçosas vinham de mansinho com seu cheiro salobro e seus bichos do mar, que enchiam nossos jererés, virando prisioneiros dos castelos de lama que eu tão bem erguia na maré vazante. Meu pai, negro pescador bisneto de escravos, à frente do Oxum, o mais belo barco daquela região, com suas velas amarelas estufadas ao vento, parecia um rei do Congo a desafiar monstros do rio sem o menor arrepio, acompanhado de valorosos grumetes, eu Zeca e Ciene. Ouço ainda a brisa suave atravessando redes e tarrafas, que quando lançadas sempre voltavam repletas de peixes, fonte de deliciosas moquecas preparadas com todo gosto por minha mãe, que costumava sair pela vizinhança distribuindo os mariscos que não conseguíamos comer. Sinto a água correr pelo meu corpo, a cortar as marolas, os gritos agudos de Ciene me incentivando a ir mais fundo, sumir e subir de repente bem pertinho dela, o coração batendo forte e o fôlego chegando aos poucos, ganhando então seus braços finos em meu pescoço, seus seios de menina moça espremidos em minhas costas nuas, o amor nascendo para sempre, junto com a lua cheia. O tempo voou e os canaviais não minguaram, ao contrário do rio, que ficou feio e triste com seus peixes mortos, levando à mingua os pescadores, as festas em seu leito, matando uns de fome e nenhum de vergonha. Muitos se foram para a cidade a procura do pão de cada dia, a luta para subir na vida. Eu fui um deles, levando mulher buchuda e a mala cheia de sonhos e esperança de tempos melhores. Volto depois de tantos anos, as ruínas da casinha de sapé e pindoba trazendo-me doces recordações, justamente no dia em que travestidos ecologistas, em to-to tós prenhes de hipocrisia, fingem que querem salvar o planeta e vão pelo meu rio, gritando palavras de ordem, bêbado-felizes, que logo mais jogaram pelas ruas parte do lixo que agora tenho nos meus pés. Ah o homem! Capaz de criar foguetes e ir à lua, fazer transplantes e salvar vidas, inventar o computador, a televisão, e dominar a força do átomo, não foi astuto o suficiente para preservar sua casa, de zelar pelas suas matas e seus olhos d’água, micro e macro universo verde, seiva da vida. Aos meus pés tenho águas podres, cemitério de garrafas pet, pneus e toda sorte de detritos. Meu filho me acompanha nessa jornada de retorno às raízes, calado e impaciente, querendo logo voltar para seu mundo virtual, repleto de heróis invencíveis, sem pés com unhas pretas enfiadas na terra molhada. De repente ele grita assustado e solta minha mão apontando para umas moitas de cipó onde um caranguejo trôpego sai da sua toca seca em busca de um sopro de vida, com suas garras frouxas que não amedrontam ninguém, o seu casco de vidro que se quebra a qualquer toque, cambaleante num vai e vem sem norte, parando a meus pés como a pedir ajuda a um velho conhecido, senhor das conchas e dos manguezais. Impossível não pega-lo, meio sem jeito, com minhas mãos limpas e sem calos, a observar atentamente, cada detalhe, os pelos, o cheiro de nada, a marca indelével de macho ou fêmea quase invisível, o seu último suspiro de vida, seu casco afundando na água imunda, afogando meu passado e enchendo meus olhos de lagrimas. Viro as costas para aquele agora ermo lugar, com a certeza que nunca mais voltarei ali.••.

TV SERGIPE PISANDO NA BOLA (OU NA FOGUEIRA ?).

Tudo parecia perfeito naquela matéria veiculada pela TV Sergipe, filiada de Rede Globo. A abertura do São João em Estancia em rede nacional, barco de fogo, fogueira, bandeirolas coloridas, tem milho, canjica e quentão, busca-pés e espadas cortando os ares. De repente, para concluir, a simpática e experiente jornalista comunica que aqui tudo acaba em forró. E em pleno ano do centenário de Gonzagão, encerra a reportagem com uma banda mandando ver, eu quero tchá eu quero tchu. Pisada na bola e falta de bom senso no país do forró.

SOS São Cristovão

SOS São Cristóvão. A cidade histórica de São Cristóvão, conhecida pela sua riqueza cultural e arquitetônica, já há muito tempo passa por período de abandono e descaso, fruto da incapacidade administrativa de seus gestores e um poder legislativo inerte e submisso, que fecha os olhos e tapa os ouvidos aos anseios da população. Tantos anos de administrações sinistras, repletas de escândalos, desvios de recursos e outras mazelas, levaram ao caos absoluto a quarta cidade mais antiga do Brasil, portadora de tantas virtudes. A realidade é trágica e sem perspectiva de mudanças. O recente tombamento pela UNESCO, da Praça São Francisco, como patrimônio cultural da humanidade, fato louvável e honroso, não modificou as condições socioeconômicas do município, que apesar de todas as potencialidades não criou uma infra estrutura que permita ao turista ali permanecer por mais tempo, o que significa abrir a carteira, movimentando assim a economia da cidade. A terra de João Bebe Agua abre suas portas aos visitantes, recebendo-os em uma rodoviária sucateada, cartão de visita imoral e aterrador. E é assim em outros pontos, outrora bem frequentados. Falta tudo para receber condignamente o forasteiro, que dali encanta-se com o patrimônio e decepciona-se com o trato vergonhoso que ele recebe. Salvam-se os museus, que funcionam regularmente, geridos por abnegados, e cujos acervos são elogiados por todos que os visitam. Décadas atrás as atrações eram diversas e traziam recursos valiosos para boa parcela da comunidade: a bica dos pintos, o banho de Rita Cacete, o Cristo, o passeio de Catamarã, as vendedoras de queijadas, beijús e pés de moleque hoje são páginas viradas de um álbum cheio de boas recordações. O presente é tedioso e imerecido para quem possui tantas paisagens marcantes. Evidentemente o fluxo de visitantes deixa muito a desejar, por falta de uma divulgação eficiente que traga resultados efetivos e o lugar carregado de história e estórias oferece àquele que chega uma cena mambembe, repleta de ausências, sem a mão de obra especializada. Como sergipano tenho orgulho da minha terra e a defendo incondicionalmente. Tenho esperança de um dia ver essa cidade brilhar no cenário nacional, a exemplo de tantas outras com as mesmas características. Não somos inferiores a ninguém, apenas nos faltam homens certos nos lugares certos, altruístas, empreendedores, dispostos a arregaçarem as mangas para lapidar nossa joia colonial e a colocar no lugar de destaque que merece ocupar.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

RAÇA AMOR E PAIXÃO: DO RUBRO AO NEGRO

Do rubro ao negro Mais uma noite. Mais uma noite de fome, de solidão, de menino de rua, de gosto de fossa na boca, de nojo de si mesmo. Mais uma noite em que se morre a cada pôr do sol, em que se espera renascer quando o dia recomeça. Porém esta, diferente das outras, era uma noite feliz, não porque as ruas do Rio de Janeiro estavam cheias, não porque em cada canto se ouviam gritos, se sentiam cheiros ou se comiam churrasco e mulheres. Não por isso. Jesus cresceu sozinho nas ruas da cidade maravilhosa. Filho não se sabe de quem, se considerava não um menino órfão, mas um filho de Oxossi, um guerreiro da vida. Ele mesmo se nomeou Jesus. Não escolheu este nome por fé, mas por falta de criatividade, já que todos pronunciavam sempre aquele santo nome, porque não tornar-se famoso por meio do mesmo? Escolheu também sua data de nascimento, uma idade e uma paixão. Dizia ele ter 17 anos, embora o corpo fosse um tanto franzino, com costelas e joelhos salientes. Era de uma cor indefinível, não era negro, porém branco também não era. Os olhos eram bem grandes e amarelados, tão observadores e sem expressão. O nariz também grande parecia cheirar a pequena boca ressecada. A pele estragada e oleosa revelava seu aspecto sujo. Era feio e antipático também. Achava-se mais que os poderosos. Só havia uma coisa que o fazia humilde, chorão e bobo, era aquela paixão desenfreada, era o sangue rubro negro que lhe pulsava nas veias. Era aquele Flamengo lindo daquela torcida explosiva e nervosa. Naquela noite um sonho antigo iria se tornar realidade, embora aquela realidade fosse, para ele, mais sonho que um fato. Ali, nas redondezas do Maracanã, onde caras tão diferentes dividiam cores tão semelhantes, em meio aos torcedores que andavam em uma só direção rumo à uma partida de gladiadores flamenguistas e fluminenses, os pés nervosos carregavam para longe um papel que voava em redemoinho por sobre o asfalto. Jesus correu atrás, era sua chance. Aquele papel perdido que voava era o mesmo que todas as mãos seguravam. Pegou o ingresso sujo e um pouco rasgado nas mãos tremulas, segurou forte até quase desmanchá-lo e correu carregando no peito o coração de todos os homens batendo juntos ao mesmo tempo. Entrou e se deparou com um mundo que só existia em suas fantasias ou nas televisões vistas pelas portas dos bares sebosos. Mas naquele momento, aquela grama, aquele calor da torcida rubro negra, os holofotes, as arquibancadas, a trave vazia, o campo vazio, a barriga vazia, tudo fazia parte de um só corpo, tudo invadia e arrepiava. Era um monstro o Maracanã, por vezes barulhento, por outras, adormecido. Jesus sentou-se, algo tornava a noite mais salutar e fazia o menino esquecer-se de sua vida desgraçada. As pessoas não reparavam na sua desgracença. Ninguém se importava se ele fedia ou se roubaria. Sentiu-se igual aos tantos desgraçados. Porque em suas pobrezas ou riquezas, eram todos desgraçados e esquecidos da vida que deixaram lá fora. Um único objetivo prendia a atenção de milhares de olhos famintos de gols, como se suas vidas dependessem daquilo e dependiam. Havia um mundo lá fora sim, mas aquele ali podia ser muito mais cruel e alucinante. A partida começou, o menino sentia seus órgãos se mexerem como dançarinos, como vencedores de uma guerra qualquer. As pessoas gritavam e xingavam muito, ele não conseguia fazer o mesmo, havia um nó na garganta, fruto do desespero de um choque com uma grande selva lotada de bichos famintos, encantados pela lua branca e redonda que, ao invés de estar no céu, rolava no chão. O apito gritou forte e se podia ver os jogadores bailarem em sincronia perfeita. As pernas exibiam dribles que confundiam e, por vezes, irritavam a todos. Era um balé violento e belo. Os adversários se batiam com força, se sujavam na grama e levantavam ainda com mais garra. No primeiro gol flamenguista, Jesus, pela primeira vez na vida chorou, encolhido na cadeira de plástico segurando os joelhos contra o peito. Depois o gol adversário pôs Jesus em fúria, batendo uma mão aberta contra a outra fechada e repetindo palavras chulas junto com os outros torcedores. Mas o terceiro gol era seu e trouxera a calmaria. Foram-se os gols, dois a um. Muitas lágrimas e suor nas mãos e, enfim, a vitória. O Flamengo havia ganhado, a torcida havia gritado e Jesus, preso na sua solidão, havia feito valer a pena sua vida sofrida. Saiu de lá levado pela multidão, não sabia se flutuava ou se seus pés saíam do chão por estar sendo carregado pela força do calor humano. Estava feliz, era isso que importava. Não enxergava, nem ouvia nada, apenas deixava-se levar. De repente um rebuliço, um aperto cada vez mais forte, um não sei que vindo de qualquer lugar fez desmanchar a harmonia perfeita do rebanho. Uma correria, gritos de socorro e de atacar, uma perda de senso de direção, uma perda de forças nas pernas espertas de Jesus. O menino ficou parado, ainda era feliz, sobretudo ainda sentia fome que, porventura, naquele momento, se tornava toneladas amarradas em seus pés que não desgrudavam do chão. Ele se viu de repente com as pernas paralisadas, ainda rodeado de assassinos, se revirando ao receber as pancadas. Cacetetes, pedras e ódio caíam sobre Jesus que só conseguia enxergar os olhos gelados e sentir o gosto de sangue na boca. A torcida organizada se desorganizara pela dúvida entre o amor por um time e o desrespeito a uma vida. Tudo ficou negro e pesado. Um sonho se diluiu em morte. Mais uma noite. Menos uma vida. Mais um corpo estendido no chão do Rio de Janeiro. Conto de autoria de Paloma Augusta

Que venha logo São João.

Que venha logo São João. Minhas mais doces recordações me remetem aos idos de 1960, quando nas noites de São João, guiado pelas mãos poderosas do meu avô materno, arremetia pelo terreiro com potentes espadas de fogo, busca-pés e peidos de véia, sob o lume de uma enorme fogueira que queimava até o dia de São Pedro. Nesta data solene era então rezada uma concorrida novena, frente a um altar enfeitado com flores do mato, com as rezas sendo entoadas fervorosamente pela enorme prole, pessoas das redondezas, sem distinção alguma, e outras que vinham de vários pontos da cidade para prestigiar a festança. “Mestre” Irenio Braz, assim se chamava meu avô carpinteiro, com o título incorporado naturalmente ao nome por todos que o conheciam, era um verdadeiro líder de sua geração, e os folguedos atravessavam as madrugadas, com o belo casarão da Rua de Laranjeiras repleto de gente a beber licores e vinhos da Buril, comer as guloseimas tão bem preparadas por minha avô e tias, ao som das batucadas e caceteiras, os enormes balões multicores, as bandeirolas e as mocinhas vestidas de tabaroas, sorridentes e formosas, sentadas embaixo de um frondoso oitizeiro, formando assim um cenário perfeito, império da amizade e alegria gratuita, que ficou famoso por toda a Aracaju. E assim foi até o dia em que o peso dos anos curvou suas costas e entorpeceu os seus sentidos, ficando a partir de então os filhos, netos e bisnetos encarregados de manter a tradição. Muitos assim como ele já não estão conosco, mas todos os anos no dia 28 de Junho lá estamos nós não tão felizes como antes, pedindo graças para todos os presentes e ausentes. Hoje o São João de Sergipe é uma festa admirada nacionalmente, e a diversidade cultural tão decantada nesse chão verde e amarelo, trouxe sua contribuição ao nosso folguedo, na forma de novos ritmos e na transformação das outrora singelas quadrilhas caipiras num espetáculo de técnica e beleza estética, um verdadeiro show visual e artístico, produto de consumo pronto para invadir as telinhas de todo planeta, sem ficar nada a dever a tantas outras manifestações populares existentes em nossa pátria. Os conceitos contemporâneos advindos com a chamada economia da cultura podem muito bem ser aplicados nesse contexto, criando um círculo vicioso do bem, gerador de transformações sociais e econômicas, impulsionando o turismo e diversos outros setores correlacionados, sem contudo deixarmos de reverenciar nossos valores mais caros, como os barcos de fogo de Estância, os bacamarteiros de Carmópolis, a festa do mastro de Capela, os casamentos e batizados dos matutos, os pés de moleques, mugunzá, pamonha, manauê e tantos outros retalhos que formam esse imenso mosaico de cultura verdadeiramente sergipana. A padronização de usos e hábitos impostos pela globalização não foi capaz de arrancar nossas raízes centenárias que nos ligam às coisas da terra, muito pelo contrario, fortaleceu-as com o surgimento de movimentos de resistência cultural, individuais ou coletivos, vivos em cada fogueira acessa nas portas das casas, nos foguetes que espocam lá no alto, no triangulo sanfona e zabumba, a santíssima trindade do forró, que juntos incendeiam os arraiás por esse estado a fora, sendo inquestionável o reconhecimento da festança como patrimônio legítimo da nossa terra, em virtude da sua amplitude, participação maciça e espontânea da população, que a perpetuou no tempo, transformando-a assim num signo inconteste de nossa identidade cultural e memória social. Então que venha logo o mês de Junho, para inebriar nossa alma, enfumaçar e colorir nossos lares, amolecer nossas enferrujadas cinturas e confirmar os versos sábios de um poeta cantador da terra: Sergipe é o país do forró, tem milho canjica e quentão. Autor do texto: Carlos Braz, brincante junino e acadêmico de Museologia da UFS. Autorizo a publicação, em qualquer meio de comunicação, desde que seja citado o nome do autor

Entre Bemóis e Sustenidos: o apogeu e esquecimento da Filarmônica Coração de Jesus

Entre Bemóis e Sustenidos: o apogeu e esquecimento da Filarmônica Coração de Jesus Carlos Augusto Braz de Jesus As bandas de música, como são popularmente conhecidas, tiveram origem na Europa, há séculos atrás, não se sabendo com precisão exatamente quando. É comum vermos em filmes épicos e históricos, as imagens de grupos musicais que acompanhavam os exércitos a caminho da guerra, executando marchas marciais e hinos, evidenciando dessa forma que essa prática se perde na imensidão do tempo. No meio civil eles se desenvolveram após a revolução francesa, em meados de 1789. Já o termo banda de música, segundo relatos, foi usado pela primeira vez na Inglaterra em 1678. Já existiam grupos musicais militares no Brasil no final do século XVIII, em Recife, Olinda e Goiana (PE), porém o fato impulsionador das artes como um todo, foi sem dúvida a transferência da corte portuguesa para o Rio de Janeiro, trazendo consigo a banda marcial da Brigada Real da Marinha. A partir daí, com a criação das escolas de artes na metrópole comandadas pela missão artística francesa, e posteriormente o surgimento de similares nas províncias mais desenvolvidas, o Brasil começava a conhecer os encantos da música erudita. Melodias executadas por bandas e filarmônicas agradavam em cheio à sociedade brasileira, e em Sergipe não foi diferente. São escassas as referencias que indicam com segurança o surgimento das bandas de música em Sergipe. Citamos algumas a seguir: Banda da Força Policial de Sergipe em São Cristovão (1844), Euterpe Maruinense em Maruim (1875), Filarmônica Nossa Senhora da Conceição em Itabaiana (1879), Filarmônica Lira Carlos Gomes em Estancia (1879) e em Laranjeiras, em data incerta, foram fundados vários grupos, todos inspiradas nos ideais liberais e de fraternidade, com a intenção de democratizar a instrução musical e elevar o nível cultural das pessoas. Informações importantes podem ser observadas na monografia intitulada “Memórias Musicais: a trajetória da filarmônica municipal Coração de Jesus em Laranjeiras”, de autoria da pesquisadora Neide Santana da Silva (2002), que relata a existência de recortes de jornais que circulavam em Aracaju, divulgando apresentações de filarmônicas entre as décadas de 40 e 50. Por volta da primeira metade do século XX, as retretas, tornaram-se populares em Aracaju. Esses encontros sociais eram realizados tradicionalmente na Praça Fausto Cardoso, no centro da capital, abrilhantados pela presença das bandas do 28º Batalhão de Caçadores e da Polícia Militar de Sergipe, que executavam com maestria dobrados e outros ritmos. Cronistas e historiadores, a exemplo de Murillo Mellins, em seu livro “Aracaju romântica que vi e vivi”, relatam de forma nostálgica como eram realizados esses eventos, prestigiados pelas presenças das famílias, mocinhas e rapazes em alvoroço, à procura de emoções e romances. Até agora citamos esses grupamentos com duas denominações, bandas de música e filarmônicas, sem distingui-los em suas singularidades. Basicamente as filarmônicas estão associadas ao meio civil, enquanto as bandas de música ligam-se com mais frequência à instituições militares A música de massa, nos dias atuais, ocupa grandes espaços midiáticos, todavia, várias filarmônicas e bandas continuam em plena atividade. O programa “Domingo é dia de retreta” , apresentado a décadas pelo comunicador Jairo Alves na Rádio Cultura de Sergipe , congrega um sem número de ouvintes, contribuindo efetivamente, para a propagação e perenidade do movimento filarmônico no estado de Sergipe. Filarmônica Coração de Jesus Laranjeiras, município sergipano fundado em 1605, rapidamente desenvolveu-se devido sua localização geográfica, às margens do Rio Cotinguiba, bem como pelo seu clima e solo propício ao plantio da cana de açúcar, matriz econômica do século XVIII. Berço incontestável da nossa cultura, intitulada em tempos áureos de Atenas Sergipana devido às qualidades dos seus intelectuais, artistas, ilustres pensadores e visionários, que plantaram aqui as sementes republicanas. Em sua terras viveram figuras ímpares, da estirpe de Horácio Hora, João Ribeiro, Zizinha Guimarães, João Sapateiro, Cônego Philadelpho de Oliveira, Manoel Bahiense, entre outros, que enaltecem e enchem de orgulho essa gente morena. Destacou-se também no cenário musical, devido à presença significativa de cinco filarmônicas, que competiam acirradamente entre si: Filarmônica Santa Cruz (pertencente à paróquia), Filarmônica União dos Artistas; Filarmônica do Comércio, Filarmônica Nossa Senhora da Conceição e a Filarmônica Sagrado Coração de Jesus, que destacamos nesse artigo, cuja jornada heroica se prolonga até os dias de hoje, suplantando as dificuldades advindas de querelas pessoais e políticas, que infelizmente colocam a arte em segundo plano. Durante a investigação para execução desse texto, não foi possível detectar com precisão em que data surgiu à Filarmônica Sagrado Coração de Jesus, devido à destruição de documentos oficiais provocados pelas diversas enchentes ocorridas na cidade de Laranjeiras. O universo filarmônico vai muito além de bemóis, sustenidos, partituras, instrumentos musicais e seus sons. É um mundo de paixão imorredoura por uma única causa: a música. Lágrimas, risos, decepções e alegrias fazem parte desse “habitat”, que num passado longínquo foi palco não apenas de inesquecíveis espetáculos, mas também de intrigas, espionagem e atos de esperteza. Era comum nesse período de efervescência musical, o desaparecimento de instrumentos e partituras da banda rival, antecipação de apresentações com o objetivo de mostrar um repertório inédito, que a outra não poderia repetir, sob pena de desmoralização, ensaios secretos e outras artimanhas dignas de um folhetim global, transformando a trajetória da Filarmônica Sagrado Coração de Jesus e suas coirmãs num embate saudável, que entrou para a história cultural da cidade. Resgatar sua história implica em adentrar na alma laranjeirense e seus recônditos, onde se formou a identidade cultural dos cidadãos, amantes dos folguedos e manifestações genuinamente populares. Totalmente inserida no contexto sociocultural do município, a filarmônica efetivamente potencializava o poder socializador exercido pela música, através do qual o indivíduo internaliza o coletivo, ou seja, através dessa socialização é que as ideias e valores estabelecidos pelo coletivo passavam a constituir o indivíduo . As filarmônicas exerciam esse poder, atraindo a atenção e admiração de pessoas de idades e classes sociais distintas, criando dessa forma um vínculo afetivo e uma noção de pertencimento entre o grupo musical e a sociedade. Com uma economia forte, o apoio por parte do comércio local e a aprovação da população, não faltavam oportunidades para que as filarmônicas proporcionassem ao público exibições constantes, tornando-se presença obrigatória no cotidiano da cidade, em qualquer lugar que houvesse espaço para a boa música. Por tratar-se de uma instituição privada, as bandas necessitavam de recursos para sobreviverem, sendo necessário de vez em quando um novo fardamento, aquisição e manutenção de instrumentos. Boa parte dos músicos exerciam outras atividades profissionais, seguindo os caminhos da arte musical por pura paixão, onde o comprometimento e a dedicação eram completos, sendo que para todos eles, os valores monetários advindos com as apresentações eram sempre bem vindos. Todavia, as condições favoráveis que fizeram daquela época o ápice dos grupos musicais, não duraram para sempre, já que, com o declínio ocorrido na economia local, o apoio financeiro reduziu-se drasticamente trazendo consequências desastrosas: a progressiva desativação do grupo, culminando com sua total inexistência, que se prolongou por longos anos. Essa desestruturação atingiu se ponto máximo durante a realização de uma das festas em homenagem ao padroeiro local, quando foi necessário convidar artistas da cidade de Estância (SE), no caso a Lira Carlos Gomes, para abrilhantarem a festividade, o que desagradou a todos, chamando a atenção para a necessidade do ressurgimento de uma filarmônica na cidade, resgatando dessa forma os costumes e tradições laranjeirenses. Desafios enormes teriam pela frente àqueles que se incumbiram dessa tarefa. Entre eles destacaram-se Álvaro Araújo, músico local cuja formação deu-se no Conservatório de Música de Sergipe e o Sr.Manoel Campos, à época coordenador do desfile cívico de 7 de setembro, com o apoio oficial do prefeito Edvaldo Xavier de Almeida. Nessa etapa, a filarmônica recebeu nova denominação, passando a chamar-se Filarmônica Coração de Jesus, tendo como mantenedora a municipalidade e seu festejado batismo deu-se por ocasião do Encontro Cultural de Laranjeiras de 1981, mais precisamente no dia 10 de janeiro, em missa realizada na Igreja São Benedito, ocasião em que foi coroada a rainha das taieiras. Todos esses esforços não foram em vão, já que a partir daí houve a retomada da trajetória de sucesso interrompida. A nova formação do grupo, com jovens estudantes da cidade, teve logo seu valor reconhecido através dos convites recebidos e aceitos para participação em festivais locais e interestaduais, sendo inclusive laureada com diplomas e troféus que comprovam a qualidade técnica dos seus artistas. Porém, o futuro promissor que a todos os componentes se abria foi novamente interrompido pelas mesmas razões anteriores em meados de 1996, já sob a regência do maestro Evandro Bispo, quando o poder público esquivou-se das suas obrigações para com o grupo, e com a falta constante de provimentos e apoio logístico, o número de participantes da banda caiu sensivelmente, ficando impossível prosseguir, já que as condições existentes não permitiam apresentações dignas, nos eventos para os quais eram costumeiramente convidados. Alguns dos seus membros, em busca de sobrevivência profissional e financeira optaram pela formação de um grupo paralelo, que participava com sucesso de festas particulares e eventualmente serviam como base quando da necessidade de exibição da filarmônica. Os sábios versos de Chico Buarque de Hollanda, abaixo grafados, sintetizam o desalento provocado na comunidade pela ausência do seu principal grupo musical: “Mas para meu desencanto, o que era doce acabou, tudo tomou seu lugar, depois que a banda passou. E cada qual no seu canto, em cada canto uma dor, depois da banda passar, cantando coisas de amor”. Na contemporaneidade, constata-se que apesar do valor histórico da filarmônica para Laranjeiras, ela ainda não conseguiu despertar nos administradores públicos esse reconhecimento, e a necessidade de mais uma vez recomeçar. Expondo a odisseia de tantos e tantos que colaboraram com seu esforço pessoal para a criação e resistência da Filarmônica Coração de Jesus, intenta-se suscitar discernimentos a respeito da formação artística e cultural da sociedade laranjeirense, visto que a música é uma das manifestações máximas da cultura de um povo. Esse texto é o início de algo ainda muito maior e mais trabalhado. Já que servira de base da Monografia de uma de suas autoras. *As autores são acadêmicos do curso de Museologia da Universidade Federal de Sergipe, campus de Laranjeiras. O artigo teve a orientação do professor M.Sc. Fábio Figueirôa, como atividade final da disciplina Introdução aos Estudos Acadêmicos. Este texto pode ser acessado no www.museologiaufs.com.br   Fontes. MELLINS, Murilo. Aracaju Romântica que vi e vivi. Aracaju, UNIT< 2007. TCC de Neide Santana da Silva: Memórias musicais: a trajetória da Filarmônica Municipal Sagrado Coração de Jesus em Laranjeiras. 2002. www.darozhistoriamilitar.blogspot.com.br www.euniverso.com.br www.delmardomingodecarvalho.com.br www.monumenta.gov.br www.meloteca.com www.filarmonicansc.art.br www.pmse.gov.br www.e-sergipe.com www.estanciasergipe.org

XANGÔ REZADO ALTO

O Quebra do xangô 1912 – 2012 sex, 01/06/12 por yvonnemaggie |categoria Sem categoria O Congresso de Cultura Afro Brasileira em Alagoas – Xangô Rezado Alto – Centenário do Quebra 1912 – 2012, organizado pela Reitoria da Universidade Estadual de Alagoas (Uneal) na cidade de Arapiraca, foi um dos pontos altos de uma série de eventos realizados no ano do centenário do Quebra-quebra dos xangôs de Maceió. No dia 1º de fevereiro último, ao final de um cortejo com mais de três mil participantes, com seus trajes brancos, lideranças das religiões afro-brasileiras, diversas autoridades políticas, professores universitários e estudantes conduzidos pelo reitor da Uneal com seu capelo – pequena capa sobre os ombros, que simboliza o poder do Reitor e sua magnificência – realizaram um ritual oficial, no qual o governador do estado Teotônio Vilela pediu perdão em nome das autoridades governamentais pela violência contra os xangôs, ocorridas em 1912. Na abertura do congresso fomos brindados com uma belíssima exposição – Presença negra em Alagoas – no Memorial da Mulher – Parque Ceci Cunha. Uma instalação de autoria de Agélio Novais e curadoria de Fernando Gomes de Andrade simulando uma casa de xangô, com um peji todo branco e destruído, um poste central pintado de vermelho e respingos da mesma tinta pelo chão branco onde se lia as palavras: repressão, racismo, intolerância, violência e preconceito. Em suas paredes internas, formando um círculo, havia grandes cartazes com fotos da Coleção Perseverança, um dos mais ricos conjuntos de objetos dos cultos afro-brasileiros, que sobreviveram ao ataque que a Liga dos Republicanos Combatentes fez às principais casas de xangô de Maceió, na fatídica noite do dia 1º de fevereiro de 1912, depois resgatados pela Sociedade Perseverança e Auxílio e, em 1950, doados ao Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas (IHGAL), em cujas instalações se encontram até hoje. Nas paredes do lado de fora da instalação, um resumo da história silenciada por tanto tempo. Na mesma noite, a orquestra de Tambores de Alagoas apresentou-se levando o som dos atabaques e a voz forte e doce de Mãe Vera entoando cânticos melodiosos em homenagem aos orixás para dentro do coração dos assistentes, absortos em absoluto silêncio no terraço a céu aberto. O reitor da Uneal, professor Jairo José da Costa Campos, procedeu à abertura do congresso, seguida da Palestra Magna do professor Lepê Corrêa, grande conhecedor das coisas do santo. O professor Lepê iniciou sua conferência com um magnífico toque deatabaque. Na ausência do instrumento musical apropriado, improvisou, ou “resignificou o objeto”, em suas palavras, cobrindo um garrafão de água de plástico com um pano branco. O rufar do tambor e a belíssima voz do ogã, saudaram exu e xangô. Só então o professor Lepê iniciou a sua fala. O evento lembrava os velhos tempos do primeiro e segundo congressos afro-brasileiros – o de Recife, organizado por Gilberto Freyre em 1934, e o de Salvador, por Edison Carneiro, Aydano do Couto Ferraz e Reginaldo Guimarães, cuja conferência de abertura foi proferida pelo famoso babalorixá Martiniano Bonfim, em 1937. Naquele tempo, Gilberto Freyre e Edison Carneiro, com as lideranças religiosas mais importantes de Recife e de Salvador se uniram pela primeira vez para pensar, refletir e tirar as “teses”. O Congresso de Salvador foi espetacular, dizem, e mãe Aninha assim tratada carinhosamente, ofereceu uma linda festa, jamais vista, em sua casa, e um chamamento para a união de acadêmicos e religiosos. Várias mães e pais-de-santo inscreveram suas comunicações no congresso como a própria Aninha, Bernardino e Falefá, assim como outros famosos líderes religiosos. O congresso da Bahia contou ainda com a participação de antropólogos e sociólogos estrangeiros como Melville Herskovitz, Robert Park, Fernando Ortiz e Maria Acher que enviaram suas contribuições. O sociólogo Donald Pierson, proferiu duas conferências. De São Paulo, Mario de Andrade enviou à Bahia o compositor Camargo Guarnieri. De Alagoas chegaram comunicações de Manuel Diegues Junior e Alfredo Brandão. Foi nesse congresso da Bahia que Edison Carneiro, ao lado de Aninha, no dia 3 de agosto de 1937, criou a União das Seitas Afro-Brasileiras da Bahia, a primeira organização com o objetivo de congregar os chefes religiosos e protegê-los das investidas policiais. Esses dois congressos fizeram um alerta contra a ação da polícia e a repressão aos terreiros de Recife e Salvador e reafirmaram o princípio constitucional da liberdade de culto. Neste maio, no seminário de Arapiraca, as lideranças religiosas e os acadêmicos apresentaram suas comunicações, discutiram pontos de vista e fizeram depoimentos comoventes. Na manhã de sexta-feira, os trabalhos foram iniciados por Mãe Miriam com cânticos de louvor a oxalá, entoados por acadêmicos e líderes religiosos, todos vestidos de branco. Naquela manhã, Mãe Miriam, a mais antiga ali presente, contou sua história de vida de forma tão íntima e honesta que ficamos todos com a respiração suspensa. Os palestrantes discorreram sobre o Quebra e suas terríveis consequências para os xangôs, sobre a formação histórica das religiões afro-brasileiras e sobre contextos e nações afro-brasileiras. Faço aqui minha homenagem aos organizadores do seminário e aos líderes religiosos que representam em Alagoas a continuidade, a beleza e a força dos xangôs. Eles não deixaram de registrar uma moção contra os abusos policiais e a repressão às casas de culto, como fizeram, em 1937, Mãe Aninha, do Ilé Axé Apó Afonjá e seus seguidores. Se na Bahia dos anos 1930 o congresso foi aberto com uma maravilhosa festa na casa de Aninha, em Arapiraca os congressistas foram recebidos na casa de uma das importantes lideranças locais, que organizou um abaixo-assinado contra a perseguição da polícia aos xangôs, ainda comum em Alagoas. Para saber mais sobre as atividades do Xangô Rezado Alto promovidas pela Reitoria da UNEAL ver o site http://xangorezadoalto.blogspot.com.br/2012_02_01_archive.html